Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » África

06 Outubro de 2018 | 14h01 - Actualizado em 08 Outubro de 2018 | 15h37

Análise - Combate ao terrorismo é vital para África

Luanda - Desde o fim da década de 1990, o mundo tem vivido uma crescente radicalização dos movimentos terroristas.

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Mapa de África.

Foto: Divulgação

(Por João Gomes Gonçalves)

Neste período, surgiram grupos terroristas como a Al-Qaeda, os Talibans, o Aqimi, o Ansar Eddine, os Shebabs, os Janjawids, o Estado Islâmico (EI) e o Boko-Haram, que, durante as suas acções, continuam a deixar profundas marcas de morte e de destruição.   

São evidentes os ímpetos destruidores do terrorismo na Líbia e nos países do Sahel, como o Mali, o Burkina-Faso e o Níger, onde, não obstante o apoio das grandes potências  (França, Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha), a situação de segurança continua a deteriorar-se.

No caso do Boko-Haram, depois dos seus primeiros ataques às instituições do Estado, protagonizados em 2009, o grupo tem-se expandido de forma assustadora, ao ponto de agora ameaçar os vizinhos da Nigéria, nomeadamente os Camarões, o Tchad, o Níger e a República Centro-Africana (RCA).

Estes quatro países vivem graves problemas de segurança militar, económica e social, que, se não forem urgentemente debelados, poderão, a longo prazo, provocar o seu desaparecimento. Esta análise vai girar em torno do terrorismo levado a cabo pelo Boko-Haram e os seus actuais e futuros aliados.

O Boko-Haram foi criado em 2002 pelo imã muçulmano Mohammed Yusuf, como oposição à educação ocidental, com o nome de “Jama'atuAhlisSunnaLidda'awatiwal-Jihad”, que significa "pessoas comprometidas com a propagação dos ensinamentos do Profeta e do Jihad".

No início, o Boko-Haram não passava de um grupo de pessoas, membros de um complexo religioso que incluía uma mesquita e uma escola islâmica em Maiduguri, Nordeste da Nigéria.

Supostamente, o complexo surgiu por causa dos altos custos das propinas na educação do país e para resistir ao ensino ocidental na região.

Muitas famílias, entre crentes muçulmanos, pobres de toda a Nigéria e de países vizinhos, começaram por aderir ao grupo e a inscrever os seus filhos na referida escola.

A primeira fase de aprendizagem do djihadismo decorreu de 2003 a 2009, altura em que a escola passou a ser um centro de formação e de recrutamento de jihadistas e a actuar politicamente contra as autoridades do Norte da Nigéria.

Naquela fase, o grupo aproveitou-se, igualmente, da porosidade facilitada pelos movimentos transfronteiriços que as autoridades não conseguem controlar, face às relações interculturais entre as populações que vivem ao longo da fronteira comum dos diversos países.

O seu primeiro verdadeiro ataque contra as instituições estatais ocorreu no início de Julho de 2009, em Maiduguri, com uma revolta fortemente reprimida pelas Forças Armadas nigerianas, resultando na morte de Mohamed Yusuf, o fundador do Boko-Haram.

Em resposta, o grupo terrorista intensificou ataques direccionados às unidades policiais, instalações militares, governamentais e prisões, assim como bloqueios de estradas.

A violência armada acabou por se impor como um dos principais factores de instabilidade social e política em todo o Norte da Nigéria.

A sua expansão fez com que, no dia 14 de Maio de 2013, o antigo Presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, proclamasse o estado de urgência nos Estados de Adamawa, Borno e Yobe.

Com o rapto de 276 estudantes do Liceu de Chibock, no Sul de Borno, a 14 de Abril de 2014, o grupo adquire mais visibilidade internacional e, no dia 24 de Agosto do mesmo ano, proclama a instauração de um “Califado Islâmico” em Gwoza, uma região do Norte do país, que ocupa militarmente alguns dias antes, controlando um número significativo de aldeias e vilas do Nordeste da Nigéria.

Segundo o jornal “L’AfriqueTribune”, de 2009 até Fevereiro de 2018, o Boko-Haram matou pelo menos 30 mil pessoas na Nigéria e provocou 2,4 milhões de deslocados no Norte do mesmo país, nos Camarões, no Tchad e no Níger.

A crise humanitária nos países onde opera o Boko-Haram apenas se compara com a que a República Democrática do Congo (RDC) vive.

Ela já causou mais de 2,4 milhões de deslocados que abandonaram os seus lares por causa da violência ou das operações “contra-inssurrecionais, que consistem na evacuação das zonas, proibição de viajar ou de fazer comércio”.

As zonas fronteiriças entre aqueles países e mesmo entre estes e a RCA, historicamente regiões de comércio, estão economicamente asfixiadas devido à insegurança.

As estradas são regularmente atacadas, os corredores da transumância bloqueados e os campos agrícolas abandonados.

Por exemplo, o Tchad, um país com 94 milhões de cabeças de gado bovino, tem, na pastorícia, o segundo sector económico e o primeiro em termos de empregado, depois do sector petrolífero.

Em virtude da insegurança fronteiriça, Ndjamena já não consegue exportar o seu gado, particularmente para a Nigéria, o seu principal cliente.

Da mesma maneira, milhares de pescadores tchadianos e nigerianos abandonaram a região do Lago Tchad, onde exerciam a actividade piscatória, e foram relegados ao desemprego.

Tal como no Tchad, a região do Extremo-Norte dos Camarões paga um pesado tributo, face à guerra contra o Boko-Haram.

A região, cuja principal actividade é a cultura do arroz, a horticultura e a pastorícia, deixou de vender os seus produtos na Nigéria, também seu principal comprador, pelo encerramento dos postos alfandegários, o que, conforme as autoridades camaronesas, pode conduzir a uma possível crise alimentar e humanitária.

Mais ao Norte, o derrube do coronel Kadhafi, em 2011, e a desintegração da Líbia, agora um Estado falido, aumentaram os riscos de contágio da ameaça terrorista no Tchad e no Níger, favorecendo a emergência de vários grupos terroristas que operam em toda a banda sahélo-sahariana, facilitada, nomeadamente, pelo saque das reservas de armas dos paióis das antigas forças armadas líbias.

Quanto à guerra civil na RCA, além dos grupos armados internos como o Séleka, o Anti-Balaka e de outros chefes de guerra, o conflito armado intensificou-se devido à proliferação de homens armados na junção fronteiriça entre os Camarões, o Tchad e o Sudão do Sul.

Uma informação publicada pelo jornal centro-africano “Ndjoni Sango”, no dia 07 de Junho último”, referia-se a uma suposta presença do Boko-Haram na fronteira-comum entre a RCA e os três países.

O jornal, que disse ter-se baseado em informações que considera “altamente confidenciais”, revela que a fronteira-comum entre os Estados acima citados, precisamente a localidade de Andafok, onde estava estacionada uma força tripartida da RCA, do Tchad e do Sudão, estaria a servir de retaguarda ao Boko-Haram.

Como em quase todos os países da sub-região onde opera, o Boko-Haram cria bastiões, sustenta o diário de Bangui, revelando, igualmente, que as autoridades desta capital terão sido alertadas pelos serviços secretos camaroneses.

No mesmo período, num vídeo postado nas redes sociais, um membro do grupo rebeldes Seleka, chamado Doug Saga, ameaçou o Governo centro-africano com represália do Boko-Haram, se eles não resolvessem o problema de segurança dos muçulmanos residentes no Bairro Km5 de Bangui.

Mais: num comunicado de imprensa que publicou, o general do movimento Seleka, Abdel KaderKalhil, revelou que tinha o apoio de elementos pertencentes ao Boko-Haram e aos Ndjandjawil (grupo terrorista do Sudão), também estacionados no bairro Km5, para desestabilizar a RCA.

Recorde-se que, desde a sua independência, em 1960, a RCA vive regularmente fenómenos de rebeliões e de golpes de Estado.

Nesta guerra civil, desencadeada em 2013, que culminou com o derrube do Presidente François Bozize pelo grupo Séleka, ido do Tchad, o governo tenta criar condições para se livrar das investidas de grupos armados apoiados pelo Boko-Haram, mas continua impávido a ver a sua população aterrorizada, dizimada e as riquezas pilhadas.

Embora as suas Forças Armadas (FACA) estejam em reestruturação, com o apoio da Rússia e dos capacetes azuis, no âmbito da Missão da ONU no país (MINUSCA), a situação militar continua a deteriorar-se, e o governo local não consegue conter a ameaça em curso.

O surgimento de vários grupos terroristas nalguns países da África Ocidental e Central faz temer um cenário que pode ser macabro.

Primeiro, se não tomarem medidas de contenção, por instinto de sobrevivência, o Boko-Haram pode vir a conectar-se, efectivamente, com o Seleka e com os janjawids de Darfur.

Por sua vez, estes, por interesses de circunstância, podem coligar-se com o LRA, do Uganda, que já opera na RDC, no Sudão do Sul e na RCA, e com a ADF, também um movimento rebelde ugandês, operativo na RDC.

Acrescenta-se a isso a possibilidade de os mesmos grupos rebeldes entrarem em contacto com a FDLR ruandesa e com outros movimentos internos de guerrilha que operam o Leste da RDC, como os Mai-Mai, entre outros.

Pelas características que todos os países que aqui foram citados têm, nomeadamente florestas, águas abundantes, diamantes, coltan, ouro, urânio, cassiterite e nióbio, uma eventual coligação dos grupos armados como aqui se aventa tornaria uma grande parte de África num vulcão de guerra sem fim.

Por isso, a guerra de subversão djhiadista em curso no “continente berço” deve ser analisada na perspectiva de se evitar que populações desprovidas e excluídas dos países afectados caiam na retórica da teoria de uma guerra de libertação contra os tiranos.

Os Estados afectados deveriam apostar no combate à pobreza, na instrução escolar da sua juventude e no banimento da exclusão social, tentando criar verdadeiras nações, em que todos os órgãos funcionem e qualquer cidadão beneficie de todos os seus direitos fundamentais.

A reposição da Administração do Estado em toda a sua plenitude e o controlo efectivo das áreas mineiras seriam acções que os países deveriam empreender.

O Leviatã do inglês Thomas Hobbes sugere a violência legítima lá onde há desordem, com vista a proteger o cidadão.

Com base nisso, os Estados afectados pelo terrorismo deveriam renovar, urgentemente, as suas estratégias, formando exércitos capazes de se dotarem de equipamentos militares e tecnológicos adequados e modernos, inerentes às operações antiterroristas.

As conclusões de intercâmbios inter-regionais do género daquele que ocorreu no Togo entre os países da África Central e Ocidental são de encorajar, desde que as suas conclusões não se tornem “letra morta”.

É vital combater o terrorismo em todas as dimensões, de forma a evitar-se o descalabro do continente negro.

Assuntos Conflito   Terrorismo   África  

Leia também
  • 08/10/2018 14:06:16

    Quénia: Alterações climáticas em África vão aumentar fluxos migratórios

    Nairobi - As alterações climáticas em África vão aumentar os fluxos de refugiados e tornar as migrações "não uma escolha, mas uma necessidade", vaticinou nesta segunda-feira o director da Organização Não-Governamental Oxfam International.

  • 08/10/2018 10:41:14

    R D Congo: Ébola mata 78 pessoas

    Kinshasa - O número de mortes provocadas pelo Ébola no Leste e Nordeste da República Democrática do Congo (RDC) subiu para 113.

  • 04/10/2018 12:26:51

    África: ONU e parceiros visitam a Nigéria e o Tchad

    Nova Iorque -Responsáveis do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do Escritório para a Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) efectuarão juntos, sábado e doimingo, uma visita conjunta a Nigéria e ao Tchad.