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26 Maio de 2017 | 19h43 - Actualizado em 27 Maio de 2017 | 11h02

Canjala - Entre o sonho e a realidade

Benguela - Impelidos pelo desígnio nacional de diversificar a economia, agricultores da Canjala começam a despertar do sonho para voltar ao sucesso da produção dos anos áureos de 1970 e fazer daquela comuna um grande celeiro agrícola.

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Alguns produtos agrícolas, expostos para venda no mercado da Canjala

Foto: Tarcisio Vilela

Tchiteculo Huambo , o rosto da luta dos camponeses na comuna da Canjala (Fazenda Vista Alegre)

Foto: Tarcisio Vilela

(Por José Honório)

Localizada a 85 quilómetros a Norte do município do Lobito, a Canjala, lar de pouco mais de 24 mil habitantes, tem forte tradição nas culturas de cereais, leguminosas, tubérculos e hortofrutícolas, mas o seu forte é a produção de feijão, segmento em que atingiu o auge em 1972, ao produzir mais de 35 mil toneladas.

No cenário actual, os investimentos têm chegado, em contrapartida, ao sector agrário de forma lenta. Apesar disso, os agricultores tiram os pés dos campos, aliás, entregam-se com uma indisfarçável vontade de ver a Canjala produzir mais e melhor, aproveitando a fertilidade do solo.

De olho no mercado, há produtores a trabalharem para mudar a imagem da Canjala, como Joaquim da Veiga, 36 anos, que gere nas mãos da família a Fazenda “Vista Alegre”.

São 210 hectares de mosaico verde, onde crescem milho, feijão, ginguba e banana. Ali, o trabalho, ainda feito à mão, envolve 22 homens e 10 mulheres que todos os dias lutam pela subsistência.

O agricultor disse à Angop acreditar no desenvolvimento do pólo agrícola local e pensa em produzir em grande escala, sobretudo banana, e em exportar para a Europa.

“Nos anos 50, a fazenda fornecia até 40 toneladas de óleo de palma por mês aos Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB)”, salienta, referindo que os tempos eram outros, não havia esta fraca produtividade de hoje.

Em virtude disso, o fazendeiro considera os investimentos em equipamentos agrícolas de última geração uma saída para os agricultores transformarem em realidade o sonho de voltar à brilhante produção de então. 

Também o fabrico de óleo de palma na circunscrição está praticamente “na estaca zero”, porque o palmar tem mais de 50 anos e, por isso, está velho de mais e improdutivo. Este facto leva o agricultor a defender sinergias para a substituição das palmeiras.

Por outro lado, explica que, na sua propriedade, há, neste momento, 40 hectares de milho e outros 12 ocupados com as variedades de banana-pão do Congo, de França e banana comercial, entre outros diversos cultivos que formam uma extensa “escultura verde”.

A grande procura no mercado foi incentivo para reactivar a cultura da banana, que vai dar cerca de 40 toneladas este ano. A maioria da produção destina-se à comercialização no mercado da Canjala para gerar receitas e, com isso, realizar os planos delineados. 

Nos últimos anos, Joaquim da Veiga anda à procura de tractor no mercado, para que possa desbravar as extensas terras da sua propriedade, que somam 510 hectares, mas o elevado preço de 12 milhões de Kwanzas faz que continue a ver pelo binóculo a satisfação desta necessidade.

“Sem tractor, a fazenda está a funcionar a meio gás”, reclama Joaquim da Veiga, que paga até 20 mil Kwanzas por hora com a utilização de uma máquina alugada a terceiros.

Por isso, afirma que, se tivesse tractor, seria possível expandir a área de cultivo, porque a fazenda ainda tem disponíveis 300 hectares agricultáveis.

Em carteira, está um projecto para o cultivo de limoeiros, tangerineiras e laranjeiras, sector em que o agricultor vê nova oportunidade de negócios. Joaquim sonha, por isso, com a compra de uma carrinha para escoar a produção e reduzir, assim, os custos com o frete.

“Há muitas fazendas paradas”, anota o jovem produtor, numa alusão à falência de pelo menos 54 fazendas da Canjala, dados que as autoridades locais confirmam. Hoje, apenas seis propriedades agrícolas tentam sobreviver, devido às dificuldades.

Encarando a agricultura como a chave para o combate à pobreza naquela comuna, em particular, e no país, em geral, Joaquim pede mais incentivos e apoios aos pequenos produtores da Canjala, a fim de garantir a segurança alimentar.

Responsável pela administração da fazenda “Vista Alegre” há 18 anos, Domingos Raimundo não vê problema com a irrigação, pois a propriedade agrícola tem acesso a uma vala (de 21 quilómetros de extensão) que garante o abastecimento de água ao perímetro cultivado.

“São cerca de 600 toneladas de milho que esta fazenda espera colher nesta época agrícola”, anuncia. E acrescenta: “Os produtos são vendidos no mercado da Canjala e há bons rendimentos”.

De olhos no feijão

Carlos Caterça, 50 anos, administrador comunal da Canjala há seis, afirmou que a entrega dos 1.800 camponeses e os poucos fazendeiros controlados pode ajudar no rápido crescimento da circunscrição, através da agro-pecuária, a base da economia local.

O apoio financeiro aos pequenos e grandes produtores com projectos viáveis é outro aspecto que Carlos Caterça considera essencial para permitir que a região volte a ser referência na produção agrícola, nos próximos tempos.

“Só vontade dos produtores não basta”, apela. O responsável acentua a ideia de que é preciso atrair investimentos para transformar os 3.500 hectares, ainda não cultivados, em fonte de emprego e renda para melhorar a vida das famílias camponesas.

Diz que o potencial de área é de mais de cinco mil hectares. Destes, apenas mil e 500 estão a ser explorados por produtores privados e do sector familiar.

A produção de feijão atinge a marca anual de 10 mil toneladas, mas o administrador fala de diversificação da produção como prioridade para assegurar, cada vez mais, rendas às famílias camponesas, uma vez que extensões de terras aráveis não faltam.

Com o notável crescimento da área plantada com esta cultura típica de pequenos produtores, o feijão da Canjala chegou a fazer figura no mercado europeu antes da independência.

Para o administrador, a paz, aliada à vontade dos pequenos produtores, abre boas possibilidades, para que a produção de leguminosas, cereais e hortofrutícolas volte a ter significativo incremento na Canjala e, com isso, firmar a região como celeiro da província.

“O nosso sonho é voltar aos tempos áureos”, almeja o administrador, que destaca as excelentes condições naturais para a agricultura, como os solos férteis e a água, que permitirão à Canjala deixar para trás uma fraca produtividade e mudar para uma agricultura sustentável.

O administrador comunal da Canjala nota que o slogan “Canjala, terra do feijão”, utilizado constantemente nos tempos em que esta cultura era um verdadeiro ex-libris da região, pouco a pouco vai renascendo, graças à estabilidade que o país vive, não obstante a crise financeira.  

Das mais de 60 fazendas de outrora, apenas seis estão documentadas e funcionam em meio a dificuldades, como avançava o administrador, dando conta da existência de quatro associações de camponeses e uma cooperativa da Associação de Apoio aos Combatentes das ex-FAPLA (Ascofa).

Para a presente campanha agrícola, é visível no rosto dos produtores algum cepticismo, devido à irregularidade de chuva na localidade, o que levou o caudal do rio Balombo a baixar.

“Este ano, estamos cépticos devido à chuva e, por isso, as previsões sobre as colheitas a efectuar já não são fiáveis”, assume o administrador, adiantando, em contrapartida, que há sempre esperanças com a safra - entre Julho e Agosto.

Feijão como diamante

Para o engenheiro Fernando Assis, director provincial da Agricultura em Benguela, a grande aposta para a comuna da Canjala é a cultura de feijão, mas é necessário aumentar a oferta de terras, para os produtores terem êxito no cultivo dessa leguminosa.

Agora, afirma, o ideal seria manter a cifra actual, estimada em 10 mil toneladas/ano de feijão. E dá a receita: “A reconversão das terras que ainda não estão a ser trabalhadas, melhor tratamento de solos muito explorados e atenção a aspectos fitossanitários para evitar introdução de pragas que prejudicam as culturas”.

“Há bem pouco tempo, produzir feijão na Canjala era tão bom como ter diamante, não só pela quantidade, mas também pela valorização das variedades aí existentes”, frisa Fernando Assis. E acrescenta: “Por isso, começámos por introduzir o feijão Macunde para então diversificar a produção”.

O programa de revitalização da cultura do feijão levou o Governo Provincial de Benguela a distribuir, em 2016, aos agricultores e produtores familiares da Canjala quantidades consideráveis de sementes. Mais importante ainda: o feijão foi comprado até por congoleses democratas, como conta o entrevistado.

“Quem passa pela Canjala sem levar um saco de feijão ou óleo de palma não é bem-vindo no seio da família…”, enfatiza o director da Agricultura, reconhecendo que a província pode tornar-se num dos maiores produtores de leguminosas, com destaque para feijão e ginguba, dado o potencial da Canjala.

Insistindo na necessidade de se diversificarem culturas, aproveitando as condições climatéricas favoráveis e grandes extensões de áreas, Fernando declara ser preciso fazer melhor aproveitamento das fazendas que se encontram subaproveitadas.

“As terras não podem estar paradas, porque, de contrário, não haveria diversificação da economia”, reconhece. O engenheiro informou que o sector está a fazer, em virtude disso, um levantamento a nível da situação de terras aráveis, cujos resultados conduzirão a uma agricultura mais modernizada na Canjala, que até possui boas zonas de produção.

Segundo Fernando, na Canjala há igualmente pequenos produtores a desenvolverem a mandioca e a batata-doce, dado que tais culturas resistem a períodos prolongados de seca.

“A Canjala foi uma zona de intenso conflito, mas a guerra pertence ao passado”, considera, assegurando que hoje há cada vez mais terrenos em preparação para o milho na segunda época agrícola, embora sustente ser necessário aumentarem-se os índices de produção por hectare, para melhores resultados.

Mercado está assegurado

A tradição da Canjala em produzir alimentos chama a atenção dos agricultores, que vêem naquela comuna uma oportunidade de agro-negócio, principalmente por causa do feijão, cultura de grande rendimento no mercado.

O feijão da Canjala é tão apreciado pelos consumidores, de tal maneira que, mesmo antes da sua colheita, há já clientes que pagam antecipadamente aos pequenos produtores, o que garante o escoamento do campo para o mercado. Quem o diz é a directora municipal da Agricultura do Lobito, Maria Francisco.

A entrevistada salienta as condições da Canjala para a produção de feijão em quantidade e qualidade. “Toda a massa camponesa cultiva o feijão e comercializa a partir do campo”.

“Ainda [só] está na sementeira, mas o comerciante paga por toda a colheita que virá a ser feita”, acrescenta, referindo que a maior parte do feijão tem Luanda como destino final. E revela: “Temos conhecimento de que, a partir da capital do país, o nosso feijão chega ao Congo Democrático”.

“Depois de Agosto, a cultura do feijão é feita atrás das montanhas e com o mercado sempre assegurado”, revela a responsável pela Agricultura no município do Lobito, acrescentando que os apoios do Governo em insumos fazem que o produto abunde nos campos.

Novamente, Carlos Caterça, administrador da Canjala, lembra do ano 1972, quando a localidade atingiu colheitas superiores a 35 mil toneladas de feijão/ano.

Posteriormente, com a independência, assistiu-se à saída do país dos proprietários de fazendas. Esse facto, aliado à guerra e às grandes secas dos últimos anos, fez que a produção colhida diminuísse.

Em contrapartida, com o impulso da paz, a Canjala alcançou melhores níveis em 2011, tendo os produtores colhido, nesse ano, mais de 12 mil toneladas de feijão, despachadas directamente para Luanda, principal mercado.

Dá ainda conta de que uma praga de insectos e ratos que continuam a devorar a área plantada com essa leguminosa fez que a produção em 2016 caísse para um registo de sete mil toneladas de feijão.

A cultura da mandioca é outra fonte de renda da Canjala, mas, ultimamente, a produção baixou em 99 porcento em toda a região, devido a uma praga que a vem assolando desde 2012.

“A nossa mandioca é especial. Infelizmente, estamos a perdê-la em consequência de uma praga que continua a fustigar os campos”, lamenta o administrador.

De resto, acrescenta: “Antes, era comum ver camiões transportarem 30 ou 40 toneladas de mandioca para Luanda. Hoje, até os sacos de 50 quilos deixaram de ser carregados no mercado informal”.

Combate cerrado às pragas 

Em resposta às preocupações do administrador comunal da Canjala, o director provincial da Agricultura admite estarem já em fase avançada, por parte do Instituto de Investigação Agronómica, os estudos para determinar e combater a praga que tem vindo a afectar o cultivo da mandioca e os citrinos.

“Os produtores, na ânsia de conseguir variedades mais produtivas, fogem ao controlo de investigação fitossanitário”, denunciou o engenheiro Fernando Assis, considerando que determinadas variedades que os agricultores trazem de outras províncias são muitas vezes vulneráveis a pragas.

“Em breve, os especialistas chegarão para analisar outras pragas que atacam as culturas na província de Benguela, entre elas, a mandioca, cujos índices de produção baixaram”, fez saber.

Esta realidade faz que o director da Agricultura alerte os produtores para a importância de submeterem sempre as variedades adquiridas a um maior controlo e estabelecer barreiras fitossanitárias para evitar a introdução de pragas que não estão na província.

São muitas doenças que atacam o feijão, mas desaparecem ao longo do tempo com a rotação de culturas, segundo Fernando Assis.

Parque industrial quase pronto

Um projecto delineado pelo Ministério da Indústria - em sintonia com o Governo Provincial de Benguela - está a sair do papel para ganhar forma como parque industrial e, assim, começar a transformar uma variedade de produtos agrícolas cultivados na Canjala.

O administrador comunal enquadra esta iniciativa no Programa de Fomento de Indústria Rural (PROFIR) e ressalta a abertura de pequenas unidades industriais, com destaque para moagens para a transformação do milho em farinha e, posteriormente, em ração animal para impulsionar a criação de suínos e aves.

“Significa que os camponeses terão de trabalhar forte para abastecer essa indústria”, assume o responsável, indicando que, numa primeira, as oportunidades de emprego vão absorver pelo menos 50 jovens da Canjala.

Actualmente, como explicou, as obras estão na fase final e, depois de concluídas, o projecto deverá evoluir com a introdução de mais serviços nas áreas de serralheira e no fabrico de bloco para a construção civil.

Assim que a barragem hidroeléctrica do Laúca começar a funcionar, uma linha de transporte conduzirá energia até ao Biópio, donde sairá outra que vai levar electricidade para Canjala, de maneira a viabilizar o funcionamento do futuro parque industrial.

“Não havendo energia, dificilmente podemos ter uma indústria aqui”, admite, augurando que, com energia, Canjala pode desenvolver-se a bom ritmo e tornar-se num pólo de atracção de investimentos. Desta forma, sublinha, será possível resgatar o sorriso e a felicidade da população.

Em contrapartida, o administrador comunal exalta a atenção do Governo Provincial de Benguela para com a Canjala, até porque, no fundo, há uma intenção de ver aquela comuna ascender proximamente à categoria de município.

“Isso galvanizará o desenvolvimento de infra-estruturas”, prevê o interlocutor, que não esconde o sonho de ver, após as eleições de 2017, a Canjala ser elevada a município para receber mais serviços e ganhar outra notoriedade no contexto provincial e nacional.

Bons ventos sopram em direcção à avicultura

A comuna da Canjala está na mira de dois grandes projectos que se resumem na construção de aviários, que poderão entrar em funcionamento em 2018, com uma capacidade projectada, cada, para 50 mil aves.

“São projectos já em curso para revitalizar o sector avícola na Canjala”, anuncia Carlos Caterça, que prevê a geração de mais postos de trabalho para animar a juventude que ainda engrossa as estatísticas do desemprego. 

O sector da pecuária está em franco crescimento na Canjala, numa altura em que são controladas 10 mil cabeças de gado bovino, assim como 15 mil caprinos, números que podem vir a aumentar nos próximos tempos.

O administrador comunal considera a zona propícia para a criação de gado, apesar de que a falta de chuva, por vezes, constitua um perigo aos criadores.

Quanto aos suínos, salienta que estes aparecem em pequena escala, dada a peste suína. “Como se sabe, o suíno não tem vacina e uma peste pode dizimar muitos animais de uma só vez”, esclarece, classificando ser ainda tímida a criação de porcos.

Relativamente à redinamização da produção de óleo de palma, mais de mil hectares estão preparados para a renovação do palmar na Canjala, que já conta com mais de 50 anos de existência, estando, por isso, improdutivo.

“Mesmo com fabriquetas, o óleo de dendém ou palma saía em tambores”, relembra Carlos Caterça, para quem, hoje, infelizmente, o palmar está velho e precisa de ser substituído.

O responsável garante, em contrapartida, que novas plantas estão já em preparação num viveiro no município do Bocoio. Falta apenas luz verde do Governo para o início da operação.

Apoios aos agricultores  

Actualmente, a assistência técnica, que, na prática, se traduz em sementes, fertilizantes, catanas, enxadas, charruas e moto-bombas, chega apenas a 2.305 do universo de 20 mil e 173 camponeses controlados em todo o município do Lobito, no qual se inclui a comuna da Canjala. 

Maria Francisco, directora municipal da Agricultura, afirma que, de fora do programa de assistência, ficam 17 mil camponeses, devido à insuficiência de imputes agrícolas com a crise que o país atravessa.

A isso, junta-se o número irrisório de técnicos agrários no município do Lobito, para que pudessem dotar os pequenos produtores de conhecimentos para melhorar a produtividade nas áreas de cultivo.

“Se melhorar a disponibilidade de insumos, então o apoio chegará a todos os camponeses”, assegura a responsável, informando que vários projectos concebidos para Canjala, Culango e Egipto-Praia vão trazer, nos próximos tempos, mais equipamentos agrícolas para a produtividade aumentar.

A abertura de valas de irrigação nas três comunas, para que os camponeses produzam sem sobressaltos, bem como a construção de mangas de vacinação e tanques de banheiro para o gado são outros projectos desenhados para o período 2017-2022.

Em cima da mesa da Repartição Municipal da Agricultura no Lobito estão ainda projectos para a instalação de viveiros florestais na Canjala, para travar o fenómeno de abate indiscriminado de árvores para a extracção de carvão, que, nos últimos tempos, tem perigado a flora.

Político almeja agricultura saudável

Rendido à vocação agrícola da Canjala, Julião Almeida, 58 anos, secretário municipal do Lobito do MPLA, coincidiu na ideia de que é preciso fazer muito mais para aquela comuna se tornar num importante centro de produção agrícola.

“Com a materialização dos programas do Executivo no período 2017-2022, os pequenos e grandes produtores da Canjala poderão emigrar para uma agricultura saudável, aliás a comuna sempre foi ‘a rainha’ do feijão”, garante.

O político do partido no poder gostaria de ver a comuna da Canjala atingir, a médio prazo, condições superiores ao período colonial no capítulo do desenvolvimento económico e social. Para isso, considera “a agricultura a rampa do lançamento do progresso”.

Manter jovens no campo é outro desafio

A directora municipal da Agricultura no Lobito afirma que um dos desafios do sector é atrair os jovens para a actividade agrícola, mas avisa que é preciso criar condições para isso. 

“Todo o mundo quer estar na cidade, mas, se tivermos condições dignas na comuna, os jovens podem lá viver”, salienta, defendendo haver também aqueles que gostariam de trabalhar no campo, conquanto haja casas agrárias e um salário atrativo.

“Em Cuba, muitos jovens trabalham no campo, e é isso que gostaria de ver aqui em Angola”, frisa. E confirma: “Há jovens que ingressam no Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA) para fazer carreira, mas, com o tempo, desistem por falta de condições”.

Agricultores pedem reabertura do Papagro

Há dois anos, o Programa de Aquisição de Produtos Agro-Pecuários (Papagro) encerrou as actividades na Canjala, o que reduziu os rendimentos dos agricultores que lucravam ao vender directamente os produtos aos agentes comerciais. Entre os prejudicados, estão os produtores Firmino Bunda e Teresa Frederico, que hoje passam por dificuldades.

“Ganhávamos dinheiro com o Papagro, porque vendíamos directamente banana, cebola, ananás e batata que iam para Luanda”, revelam, acrescentando que as coisas começaram a correr mal desde que o mesmo encerrou as portas.

Na resposta, o director provincial da Agricultura, Fernando Assis, garante o ressurgimento do Papagro nos próximos dias, com mais organização dentro da visão do Executivo.  

“Há um estudo que está a ser feito por orientações do Ministério do Comércio para o Papagro reabrir com mais organização”, avança, dando praticamente como certa a sua revitalização nas instalações onde já funcionava, precisamente no mercado da Canjala.

Na avaliação do director, a projecção do Papagro na Canjala foi uma ideia muito bem pensada, porque é uma zona de trânsito entre o Norte e o Sul do país.

Mercado da Canjala – paragem obrigatória

Quem passa, de vez em quando, pela comuna da Canjala, através da Estrada Nacional EN-100, já conhece o mercado tipicamente de produtos agrícolas cultivados na região, como milho, tubérculos e leguminosas.

Muitas famílias camponesas aproveitam esta oportunidade para vender o melhor que a terra dá a quem a produz. Esse é o caso de Teresa Frederico que transporta consigo bidões de cinco litros cheios de óleo de palma.

Ela reclama que a crise afastou os clientes que, estando de viagem, por ali passam. “Hoje em dia, vender um bidão por 2.500 Kwanzas leva muito mais tempo que anteriormente”.

Firmino Bunda, 42 anos, oito dos quais como responsável-adjunto do mercado da Canjala, avança que o local acolhe 166 feirantes e tem 35 barracas de comes e bebes instaladas, que atraem muitos clientes com os seus pratos típicos.

Na lista dos produtos mais vendidos a preços convidativos, Firmino Bunda aponta o tomate, as batatas rena e doce, a mandioca, o repolho, o abacaxi, a banana e o óleo de palma.

“Aqueles que viajam de Benguela para Luanda, ou de Benguela para Lubango, vice-versa, costumam parar aqui para retemperar energias com funje de milho e carne de veado”.

Há quatro meses, Maria da Silva, 22 anos, fugiu das dificuldades no Lobito, mas encontrou na Canjala uma forma de ganhar a vida com dignidade.

De segunda a sábado, Maria prepara comida numa das barracas do mercado, na companhia de mais jovens em situação semelhante.

“Confeccionamos funje de milho, carne de vaca, cabrito e galinha, calulu de peixe e feijão com óleo de palma”, diz Maria, apontando para as panelas que confortam o estômago da clientela.

Com um sorriso permanente, a jovem desabafa que esta realidade não é bem a que sonhara, mas mostra-se feliz por ganhar mensalmente 15 mil Kwanzas e, por isso, decidiu-se a continuar a estudar à noite.

Persistência no campo

Dia após dia, os camponeses desafiam o sol abrasador para produzir alimentos de que tanto os angolanos precisam. Tchiteculo Huambo é o rosto da luta dos camponeses na comuna da Canjala.

Enquanto preparava uma vala para o regadio do milho, na Fazenda “Vista Alegre”, Tchiteculo Huambo, pouco mais de 56 anos, considerava difícil o trabalho do campo, dadas as vicissitudes do clima.

Com momentos de um silêncio pesado, o camponês afirma que ganha três mil Kwanzas por cada semana de actividade, mas nem por isso se deixa vencer pelas dificuldades de sustentar cinco filhos que já andam na escola.

Manuel Amaral é outro produtor do sector familiar na Canjala, que também não mede esforços quando a missão é produzir banana, milho e feijão.

Lembrando com nostalgia dos áureos tempos da produção agrícola na comuna, Manuel tem esperanças de que o país irá vencer a actual crise e que a distância entre o sonho e a realidade da Canjala será tão pequena quão um grão de milho.

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