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26 Abril de 2017 | 17h39 - Actualizado em 26 Abril de 2017 | 19h03

O Porto do Lobito ocupa um lugar relevante na África Austral - Administrador

Luanda - O lugar estratégico do Porto Comercial do Lobito na África Austral é tema de uma grande entrevista que o administrador para a Área de Finanças da Infra-Estrutura, Eduardo Seno, concedeu à Angop.

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Extensão do Porto Comercial do Lobito

Foto: Tarcisio Vilela

Nota do Editor

Dois gigantes adormecidos

(Por José Chimuco)

Quando se pronuncia o topónimo Lobito, que dá nome a uma das mais emblemáticas cidades do litoral-centro angolano, rapidamente vem à memória os traços característicos de dois gigantes infra-estruturais: o porto comercial homónimo e os Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB).

O Lobito não se resume no porto nem na maior linha-férrea angolana, mas falar da cidade que já foi conhecida como “Sala de Visitas de Angola”, sem se fazer referência a estes dois gigantes, é o mesmo que nada.

Desde os tempos da ocupação colonial portuguesa, o Lobito ganhou fama e memória, não só pelo seu carnaval (então considerado o mais importante de Angola) e pelos mangais repletos de rosados flamingos, mas também, e sobretudo, muito pela custa do Porto Comercial homónimo e dos CFB.

Hoje, as duas infra-estruturas simplesmente estão adormecidas. O Executivo investiu “rios” de dinheiro para reabilitá-las, mas elas funcionam a meio gás e operam sem serventia de monta.

Tudo porque pararam as exportações de produtos originários das vizinhas Repúblicas do Congo Democrático (RDC) e da Zâmbia, dois países sem acesso ao mar. Grande parte do movimento comercial lobitanga provinha deste comércio.

A retoma da exportação de produtos oriundos da RDC e da Zâmbia está dependente da ligação ao Luau, província do Moxico, dos ramais ferroviários das localidades dos dois países produtores de minerais.

A linha-férrea do Lobito ao Luau está pronta desde Fevereiro de 2015, mas falta a ligação à Zâmbia e à RDC, que também pretendem tirar proveito dos CFB e do Porto Comercial.

Para se rentabilizarem as duas infra-estruturas, Angola, RDC e Zâmbia têm de negociar a saída mais plausível para a satisfação dos interesses das partes.

E, aqui, um papel muito mais interventivo é reservado a Angola, no sentido de empreender diplomacia económica mais dinâmica ou activa.

O país pode e deve, inclusive, contribuir para a captação de recursos financeiros internacionais que ajudem a RDC e a Zâmbia a concluírem as suas ligações ferroviárias aos CFB.

A contrapartida seria encontrada nos próprios recursos minerais de que a RDC e a Zâmbia são potencialmente muito ricos.

Siga as respostas do administrador do Porto Comercial do Lobito (PCL) para a Área de Finanças, Eduardo Seno, às questões colocadas por José Honório e José Chimuco:
 
Angop - Que lugar ocupa o Porto do Lobito na África Austral, em particular, e no continente africano, em geral?

Eduardo Seno (ES) - O Porto do Lobito ocupa um lugar relevante na África Austral, por ser um impulsionador estratégico não só para o desenvolvimento da economia das regiões Centro e Sul de Angola, como também dos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) sem acesso ao mar, que, através dos CFB, atenderá à necessidade da criação de condições de desenvolvimento económico de Angola e das zonas ricas em minerais, sobretudo a RDC e a Zâmbia, integradas no corredor do Lobito. Tem, igualmente, uma vertente muito acentuada de prestação de serviços à navegação.
 
O Porto do Lobito dista de Cap Town (África do Sul) a 1.410 milhas náuticas ou marítimas, 7.537 de Nova Iorque (Estados Unidos da América), 5.127 de Amsterdão (Holanda), 5.050 de Southampton (Inglaterra) e 4.179 de Lisboa (Portugal). Uma milha náutica ou marítima equivale a 1.852 metros, ela não integra o Sistema Internacional de Unidades.
 
Angop - Quando retoma a exportação, através do PCL, de produtos originários da RDC e da Zâmbia?
 

ES - Efectivamente, Angola fez a parte que lhe compete do investimento necessário. As autoridades angolanas estão em contacto com os homólogos da Zâmbia e da RDC, com quem já assinaram os acordos transfronteiriços nos domínios ferroviário, marítimo-fluvial, aéreo e rodoviário. Existem, igualmente, contactos directos com as empresas exploradoras de minérios em ambos os países. Em relação à Zâmbia, pretende-se fazer uma ligação ferroviária directa entre os dois países, com desvio a partir do Luacano, no Moxico, e interseção na localidade de Jimbe, fronteira com a Zâmbia. E, do lado zambiano, seria feito um trabalho similar até àquele ponto. Até ao presente, a ligação é feita através da RDC.

Contudo, a situação económica e financeira que atingiu os vários países da região, nos últimos, não permitiu ainda a concretização desses projectos.

 
Angop - O Porto do Lobito depende, em grande parte, do funcionamento dos CFB que, em contrapartida, não passam de um gigante adormecido, apesar das enormes somas de dinheiro investido para a sua reabilitação. Que saída para este impasse?
 

ES - Conforme já foi dito, os CFB, associados ao Porto do Lobito, são uma infra-estrutura capaz de ajudar no crescimento rápido das economias dos países da região austral do continente. Do nosso ponto de vista, o que falta para a saída deste impasse são as exportações, porque, além de percorrer pela vasta área do território nacional, constituem uma importante via de escoamento de produtos e bens para os países que não beneficiam da costa marítima. Vejamos que, nos tempos áureos dos CFB, do tráfego drenado para o litoral constavam, especialmente, minério, cobre, cobalto, manganês e zinco, vindos da RDC e da Zâmbia.

Faziam também parte vários produtos agrícolas oriundos do interior do país, combustíveis, material de construção, conservas, sal e peixe. Ainda no que à exportação diz respeito, os principais produtos que se escoavam para o exterior eram açúcar, melaço, algodão, arroz (proveniente do Luso, actual Luena, na província do Moxico), borracha, goma, café, calcário, coconote, cera, couro, crueira, farinha de peixe (oriunda da Baía Farta, na província de Benguela), feijão, fibras, farinha de milho, farinha de mandioca, óleo de palma, óleo de peixe, óleo de rícino, peixe seco, rícino, sal, sisal (proveniente do Cubal, Benguela), tabaco, petróleo bruto, entre outros. Tudo isso era exportado através do Porto do Lobito.
 
Angop - Para que serviu, em concreto, o investimento de um bilião e 250 milhões de dólares aplicados no PCL?
 
ES - O investimento aplicado no Porto do Lobito pelo Executivo serviu para dotá-lo de infra-estruturas modernas, torná-lo num dos grandes impulsionadores da economia nacional e num dos portos mais importantes do continente africano, conforme o foi antes da independência, ou seja, a porta de entrada e saída de Angola, com melhor qualidade de serviços e maior produtividade. Serviu, igualmente, para criar capacidade para importar e exportar carga geral e contentorizada, criar condições para exportar minério e também para o transporte de petróleo bruto e óleo para a futura refinaria.
 
Angop - Em que consistiu o projecto de ampliação e modernização do PCL, iniciado em 2008?
 
ES - Consistiu na construção de infra-estruturas, como um moderno Terminal de Contentores, o Porto Seco e o Porto Mineiro. Foi feita também a pavimentação das áreas adjacentes e a ampliação do cais para a acostagem de navios. O cais pode ser acedido por navios porta-contentores de quarta geração, com capacidade para transportar de três a quatro mil contentores de 20 pés. Consistiu também na edificação de uma nova ponte construída sobre o mangal que, grosso modo, veio dar maior fluidez ao trânsito automóvel pesado que antes tinha de efectuar muitas manobras para ter acesso às principais unidades económicas localizadas no centro da cidade. O imponente empreendimento tem quatro faixas de rodagem e podem circular nele viaturas de até 40 toneladas de carga. Para a segurança dos peões, a nova ponte, além do passeio nas bermas, está totalmente iluminada, o que proporciona, à noite, uma vista magnífica do mangal.
 
Angop - O Terminal Mineiro do Lobito foi, igualmente, modernizado, mas permanece inoperacional. Até Quando?
 
ES - O Terminal Mineiro do Lobito tem todas as condições para receber minério, mas o meio de transporte com papel decisivo para que esta importante infra-estrutura funcione é o comboio dos CFB que, desde a sua chegada ao Luau, em Fevereiro de 2015, não atravessou os limites fronteiriços de Angola, por falta da conclusão dos trabalhos do lado da RDC e da Zâmbia. Essa é a razão da sua inoperacionalidade.
 
Angop - Quais foram as principais intervenções efectuadas no Terminal Mineiro do Lobito?
 
ES - A construção do Terminal de Minério incluiu todos os equipamentos e instalações necessárias para realizar operações portuárias. A intervenção abrangeu, igualmente, a execução de uma plataforma artificial, com materiais provenientes do desmonte da montanha e dragagem do leito da baía. Esta plataforma compreendeu a construção de uma Parede de Cais, com uma extensão de 310 metros, uma área total de cerca de 200 mil metros quadrados e capacidade para receber navios de 50 mil DWT (arqueação bruta). O referido terminal tem uma capacidade operacional de três milhões e 600 mil toneladas/ano.

Está também equipado com duas gruas de 16 toneladas/33 metros, um descarregador de minério com capacidade para 500 toneladas por hora, dois pórticos sob rodas de 16 toneladas, quatro tractores, 10 atrelados  de 10 a 20 toneladas, duas empilhadoras de garfos de três toneladas, quatro empilhadoras de garfos de três toneladas, duas pás carregadoras, um balde  descarregador de três metros cúbicos, reclaimer e 870 tapetes de  870 e 810 metros, respectivamente.
 
Angop - Quantos trabalhadores tem o Porto do Lobito?
 
ES - O Porto do Lobito tem, actualmente, 1.957 trabalhadores no activo.
 
Angop - Desse total, quantas mulheres?
 
ES - Desse total, 272 são mulheres.
 
Angop - Em termos de movimentação de carga e passageiros, antes da independência, qual foi o ano em que se registou o pico?
 
ES - A criação de condições de navegabilidade do Porto do Lobito proporcionou um movimento notório de mercadorias nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado (XX), com um total de aproximadamente 10 milhões 157 mil e 606 toneladas. O auge, antes da independência, foi atingido em 1973, quando a empresa manuseou mais de três milhões de toneladas.

Angop - Depois da independência, qual foi o ano de maior movimentação de mercadorias e passageiros?
 
ES - O ano de maior movimentação de mercadorias, depois da independência, foi o de 2013, quando foram movimentados dois milhões 984 mil e 220 toneladas.
 
Angop - Qual foi o volume de carga movimentada pelo Porto em 2002?
 
ES – O Porto do Lobito movimentou, em 2002, 672 mil e 860 toneladas de mercadoria diversa.
 
Angop - Qual foi o volume de carga movimentada nos anos de 2013, 2014 e 2015?

ES - Em 2013, o Porto do Lobito movimentou dois milhões 984 mil e 220 toneladas de mercadoria diversa. Em 2014, moveu dois milhões 926 mil e 505 toneladas e, em 2015, apenas um milhão 849 mil e 158 toneladas.
 
Angop - Qual foi o número de navios que escalou o PCL nesses três anos?
 
ES - Em 2013, escalaram o Porto do Lobito 687 navios, em 2014 acostaram 677 e, em 2015, 443 para as operações de carga e descarga de mercadorias.
 
Angop - Qual é a origem dos navios que escalam o PCL?
 
ES - Os navios que escalam o Porto do Lobito vêm de distintos países, nomeadamente, Alemanha, França, Espanha, EUA, Holanda, Itália, Malta, Libéria, Panamá, Namíbia, Senegal, Singapura, China, Chipre, Costa do Marfim, Brasil, Bélgica, Portugal, Suíça, Bahamas, Hong-Kong, entre outros.
 
Angop - Que levam de regresso estes navios?
 
ES - Levam outras mercadorias contentorizadas, destinadas a outras localidades e também embarcam contentores vazios, cujas mercadorias foram entregues aos seus destinatários.
 
Angop - Que números existem em relação ao movimento de contentores nos anos 2013 e 2015?
 
ES - Em 2013, foram movimentados 93.444 (noventa e três mil e quatrocentos e quarenta e quatro) contentores, em 2014 85. 779 (oitenta e cinco mil e setecentos e setenta e nove) e, em 2015, 30.952 (trinta mil novecentos e cinquenta e dois).
 
Angop - E em relação a viaturas, igualmente no mesmo período?
 
ES - Em 2013, foram movimentadas 1.114 viaturas, das quais 350 pesadas e 804 ligeiras. Em 2014, foram movimentadas 1.942 viaturas, das quais 1.702 ligeiras e 240 pesadas. Já em 2015, o Porto do Lobito movimentou 716 viaturas, sendo 660 ligeiras e 55 pesadas.
 
Angop - Quais são as perspectivas para 2017?
 
ES - Para 2017, perspectiva-se melhorar a actividade portuária, para a satisfação de todos os utentes do Porto; alcançar altos padrões de produção e produtividade; tornar mais céleres as operações de carga e descarga de mercadorias; apostar fortemente no capital humano; entre outras coisas.

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