Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » Lazer e Cultura

03 Agosto de 2018 | 12h43 - Actualizado em 03 Agosto de 2018 | 12h42

Yola Castro advoga incremento de incentivos para produção literária infantil

Luanda - Apesar das inúmeras dificuldades consubstanciadas, principalmente, pelo preço da edição, o que acaba por tornar escassa a produção literária, a escritora Yola Castro considera o mercado literário infantil promissor e com largo caminho pela frente.

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

escritora angolana Yola Castro (arquivo)

Foto: Joaquina Bento

Em entrevista à Angop, a literata discorre pelos meandros do mundo literário angolano, apontando como caminhos para se levar o livro ao bolso dos leitores o alavancar da produção literária infantil, contribuindo, desta forma, para o aumento dos conhecimentos das crianças.

(Por Marcela Ganga)

Angop – Como caracteriza o estado actual da literatura infantil angolana?

Yola Castro (YC) – É promissor. A literatura ainda tem muito para oferecer, tem muito sumo, e ainda precisamos de espremer muito. É preciso que as pessoas acreditem que, embora ela se chame literatura infantil, não é uma arte menor. Se tivéssemos o cuidado de ler dois a três livros infantis por ano, tornar-nos-íamos pessoas melhores, mais doces, pessoas que melhor se entregariam ao amor ao próximo e melhor produziriam para o crescimento e desenvolvimento do país. É preciso que nos lembremos de que, quanto mais livros  forem dados à população, mais educação teremos e menos trabalho o Governo terá com as populações. É necessário que as pessoas leiam, porque o  livro molda a personalidade e ensina-nos a ser diferentes. Então, é preciso que haja mais obras, uma vez que um país sem livros é um país de analfabetos.

Angop - Ainda há muito por se fazer em termos de literatura infantil no país?

YC – Sim. Há muito por ser feito, se tivermos todos envolvidos e não olharmos para aquilo que é o trabalho já desenvolvido.

Angop – Diz-se que o mercado regista escassez em termos de produção. O que se pode fazer para se reverter o quadro?

YC – Antes de mais, devo dizer-lhe que existem muitas pessoas com vontade de escrever, mas, infelizmente, não sabem como escrever direito. É preciso que se criem políticas de incentivo, com o objectivo de se colocarem mais livros no mercado, porque, quanto mais livros houver, mais estaremos a educar as nossas populações. Enquanto não tivermos no país condições para a edição de livros com qualidade desejável, o maior incentivo que pode ser dado é a redução da carga fiscal.

Angop – Pode-se, então, concluir que o preço alto do livro está a contribuir também para que a camada infanto-juvenil deixe de o ter como um amigo predilecto.

YC - Angola é um país rico, mas os angolanos são pobres, infelizmente. Entre comprar o pão, o chá, o açúcar, a manteiga e um livro, os pais acabam por optar por comprar aquilo que vai alimentar fisicamente o filho. Um ou outro mais sábio consegue equilibrar as coisas. É necessário que haja mais bibliotecas. Se o livro é caro ou muita gente acha que é caro e não consegue comprá-lo, deve haver bibliotecas na esquina da rua, onde possam lê-lo, embora paguem uma taxa mínima que permita estar o tempo suficiente em contacto com o “mestre mudo”, para ensinar o filho a folhar. Ler é viajar, ler é entrar em lugares onde nunca poderemos estar, é andarmos de avião sem pagar por um bilhete de passagem e sem que haja necessidade de tratar um passaporte; portanto, precisamos de ler muito.

Angop - O que deve ser feito para que não haja tanto custo?

YC - Enquanto não houver políticas, o Estado tem de alocar uma verba direccionada para o mercado do livro, criação de bibliotecas, de actividades, ocupações, atendimento às famílias e à  escola. Dever-se-ia criar um pacote exclusivo para cuidar dessas áreas, exigindo-se, regularmente, um relatório para se ver como estão a trabalhar e a capacitar as pessoas nestes ramos. É necessário também que se criem políticas de leitura que incluem (até) zungueiras e que se produzam pequenos folhetos com estórias curtas para oferecer. Precisamos, igualmente, de continuar a trabalhar na alfabetização, pois as pessoas precisam de ser alfabetizadas.

Angop – Quanto custa editar um livro?

YC – É caro. Em 2012, a edição de mil exemplares custava sete mil dólares. Nas vezes em que editei um livro, não vi o retorno dos valores, pois editamos por amor. Editamos, mas sem esperar por lucros. Ainda assim, cada vez que coloco livros no mercado e sou interpelada para falar dos frutos que geraram, sinto-me feliz e não me importam os valores que já perdi, porque acho que os valores que consigo dar às pessoas acabam por compensar as perdas financeiras que tive ao investir, para poder dar à nova geração um pouco do que aprendi e recebi na minha infância.

Angop - Que acções podem contribuir para o incentivo ao gosto pela leitura no seio da juventude?

YC- Os media precisam de contribuir muito. Todas as pessoas, de alguma maneira, vêem televisão, lêem jornal e outras ouvem rádio. É preciso que se criem políticas, para que os meios de comunicação social falem de livros, tragam escritores, apresentem obras e sugiram leitura. As instituições devem desempenhar acções, no sentido de criar e de formar mediadores de leitura, promotores de livros e até biblioteconomistas. Quase não temos bibliotecas, e a comunidade necessita de livros. Precisamos de arranjar pequenos jangos, onde membros do Ministério da Cultura possam trabalhar na comunidade, mostrar livros às pessoas, o que retratam, ensinar como podemos aplicar os seus ensinamentos no dia-a-dia na vida prática. Se voltarmos às nossas atenções para esse lado, teremos um país que todos desejamos, aquela Angola de alicerces fortes, a Angola de angolanos que poderão ser mencionados em todas as partes do mundo. Caso contrário, vamos continuar a navegar sem saber onde é o porto. Nunca vamos encontrar um porto-seguro, o que não é saudável.

Angop – Até que ponto a Lei do Mecenato pode ajudar, para que o livro chegue a um preço mais acessível ao consumidor final?

YC – Não conheço muito bem a Lei do Mecenato e quais os pressupostos em que se baseia, bem como até onde actua. Se, realmente, tem a responsabilidade de subsidiar o livro, deve fazê-lo, porque é urgente. O processo de fazer com que os livros cheguem às pessoas é uma necessidade para já.

Angop - As bibliotecas comunitários são fundamentais?

YC - Sim, mas com pessoas capacitadas, pois não podemos ir às bibliotecas e encontrar indivíduos que não sabem a função da mesma, não sabem como lidar com o público, não têm consciência de que informações transmitir ao público. A biblioteca é um ponto de cultura, não é só um lugar para ler livros. Nela, podemos encontrar exposições de livros, de obras de pintura de outros países, entre outras. A biblioteca é um ponto de cultura onde, se tivermos pessoas criativas que sabem o seu valor e função, poderemos fazer que os leitores façam do local uma casa habitual. É necessário obrigar as pessoas a ficarem presas nela, dado que as histórias e as actividades são cada vez mais interessantes e prendem os visitantes. Há oficinas do saber que podem ser realizadas nas bibliotecas. Existem pessoas nas comunidades que não trabalham e, se forem aprender variadas artes, poderão desenvolver trabalhos nas suas residências, que podem ser rentabilizados e contribuir para o seu auto-sustento.

Angop – Mas também há quem diga que a qualidade dos produtos colocados à disposição da população desencoraja  a procura por obras literárias.

YC - A qualidade do livro não depende do escritor, mas, sim, do leitor. Eu posso olhar para um livro, mas não gostar, e existir pessoas que gostem, porque se encontram ou se reencontram nas histórias que lêem. Às vezes, acho que aquele livro não tem qualidade porque não tem nada a ver com o meu modo de vida, mas que se enquadra ao modo de vida de outras pessoas. A qualidade depende de quem lê. Ao escrever um livro, devemos pensar no leitor. Quem é o nosso leitor, o que ele precisa de receber nessa altura. É com base nisso que se criam os conteúdos a oferecer ao público.

Angop - Aponta-se à nova geração muitas deficiências. Não acha que está na hora de os mais velhos promoverem mais acções que levem a camada infanto-juvenil a mudar de atitude perante a sociedade?

YC – O que acontece é que muitos mais velhos se frustram muito depressa, mas devemos lembrar que a educação é um processo contínuo. Não se pode pensar que se educa hoje e se colhem os frutos no momento. A educação é contínua e, muitas vezes, é necessário ficar à distância, para ver como será aplicado tudo quanto é injectado. É muita pena que se empurrem todas as responsabilidades apenas à juventude, tendo em conta que algumas das situações registadas são da responsabilidade dos adultos, que são impacientes e imediatos, pois querem ver os resultados instantâneos.

Angop - Como vê a convivência entre a velha-guarda e os jovens escritores?

YC - Sinto que deve haver mais exercícios e actividades à volta da leitura e dos livros. Existe apenas uma casa, que é a União dos Escritores Angolanos, e não sei se abre portas para esse tipo de acções. Precisamos de criar sítios, pelo menos em cada município ou distrito urbano que reúna a nova e velha geração, para a troca de experiências. Precisamos de passar essa experiência, trabalhar com os jovens, passar o testemunho, uma vez que eles vão ficar e, se não forem preparados, não haverá continuidade deste exercício.

Angop - O que é necessário para ser um escritor e, acima de tudo, um bom escritor?

YC – Para ser escritor, é preciso lembrar que oferecemos às pessoas o que de melhor existe em nós para fazer delas melhores. O escritor não pode ser hipócrita ou ser alguém que escreve algo que não o identifica. Se quisermos transformar as pessoas, teremos de dar o que de melhor temos. Quando não acontece, podemos escrever mil livros, mas vão acabar empoeirados nas prateleiras, porque ninguém os vai ler. É preciso uma combinação entre aquilo que somos como pessoas e aquilo que escrevemos. Escrevemos aquilo que somos. Ser escritor é isso. Existem muitos que escreveram livros, mas não são escritores. O escritor precisa de tocar um indivíduo e de fazer que outra pessoa diga: É assim que eu quero ser.

Jornalista e professora de Literatura Infantil, Yola Castro tem no mercado, entre outras, as obras “A Borboleta Colorida e a Linda Joaninha” (Prémio Literário 16 de Junho, INALD-2003), “Colectânea do Conto Infantil e Vuvukyetu” e “Família Real”.

Nasceu em Luanda, em 1977, e, desde os 12 anos, dedica-se à Literatura Infantil.  

Assuntos Angola  

Leia também
  • 01/08/2018 11:28:30

    Candidatura de Belmiro Carlos à presidência da Unac-SA apresenta recurso

    Luanda - O músico Belmiro Carlos, concorrente às eleições dos novos órgãos sociais da União Nacional dos Artistas e Compositores-Sociedade de Autores (UNAC-SA), apresentou nesta quarta-feira um recurso hierárquico, com efeito suspensivo, para exigir a participação da população votante das províncias de Cabinda, Huambo, Malanje e Benguela no pleito eleitoral de 17 de Agosto.

  • 01/08/2018 11:28:30

    Candidatura de Belmiro Carlos à presidência da Unac-SA apresenta recurso

    Luanda - O músico Belmiro Carlos, concorrente às eleições dos novos órgãos sociais da União Nacional dos Artistas e Compositores-Sociedade de Autores (UNAC-SA), apresentou nesta quarta-feira um recurso hierárquico, com efeito suspensivo, para exigir a participação da população votante das províncias de Cabinda, Huambo, Malanje e Benguela no pleito eleitoral de 17 de Agosto.

  • 01/08/2018 08:01:33

    Pedro Teca no mercado musical com lançamento de single em Dezembro

    Luanda- O cantor Pedro Teca "PT" anunciou nesta quarta-feira, em Luanda, o lançamento do seu primeiro single no fim de ano em curso.