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09 Setembro de 2019 | 12h59 - Actualizado em 09 Setembro de 2019 | 13h10

"O Jazz continua parente pobre" - Jerónimo Belo

Luanda - Quando se fala em promoção e afirmação do ritmo jazz em Angola, um nome, em particular, dificilmente pode ficar de fora: Jerónimo Belo.

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Jornalista Jerónimo Belo

Foto: Cedida

(Por Venceslau Mateus)

O promotor, um dos mais acérrimos defensores desse género musical no país, fala, em exclusivo à ANGOP, sobre os vários momentos do surgimento do jazz em Angola.

Em entrevista, o crítico de Jazz aborda a passagem pela televisão, os precursores do jazz e os preconceitos à volta dos seus fazedores, bem como aponta os melhores caminhos para massificar essa manifestação artístico-musical.

Conhecedor do mercado, o entrevistado afirma que “o jazz continua a ser um parente pobre” em Angola, pelo que julga necessário “democratizar o acesso à arte e a este estilo”.

Eis a íntegra:

ANGOP – Jerónimo Belo é um nome incontornável na história do jazz em Angola. Quando e como começou por promover esse estilo?

Jerónimo Belo (JB) - Este juízo é do senhor jornalista! Sou, isto sim, um actor social, entre outros, que ama o jazz e considera essencial estudar, conhecer e divulgar esta tipologia musical que nasceu na América - é bom sublinhar este aspecto -, fruto do encontro de duas culturas: a europeia (dominante) e a africana (escravizada). Passados mais de 100 anos, este estilo tornou-se numa plataforma de fraternidade e entendimento entre criadores de todas as geografias e latitudes, cujo percurso (em cerca de 50 anos) fez o que a chamada “música erudita” demorou quase três séculos para  construir!

Comecei por promovê-lo depois das primeiras “blue jeans”, no jornal “O Estudante”, editado pelo então Liceu Salvador Correia, hoje Magistério Mutu-ya-Kevela, em Luanda, no início da década de 60, com um artigo sobre o Louis Armstrong, que o jornalista Rui Ramos deve tê-lo nos seus preciosos arquivos. Assim, iniciou-se uma bela amizade através da divulgação do jazz, que ainda não parou. Depois do artigo, necessariamente lacunar, a rádio, os jornais, a televisão e os concertos tornaram-se locais predilectos.

ANGOP - Quais foram as figuras nacionais e estrangeiras que o influenciaram?

JB - Cruzei-me e convivi, ao longo destes mais de 50 anos de paixão, com pessoas notáveis. Seria gravemente injusto não mencionar o nome de José Andrade, o músico e pintor luandense Zan (já falecido), com quem comecei por ouvir os primeiros discos na Rua da Índia, bairro Cruzeiro, em Luanda, onde cresci. Na adolescência, também conheci um funcionário da então Emissora Oficial de Angola, Rogério de Vasconcelos, com quem muito aprendi.

Ouvi imenso jazz (e ainda hoje partilho informação) com Domingos Coelho, Paulo Múrias e o artista António Ole , grandes amantes deste estilo e excelentes amigos. Fora de portas, o panorama é mais variado (ironias da vida…). Terei de destacar o nome de Luís Villas-Boas, a quem os jazzófilos da minha geração tanto devem. Fiquei a dever-lhe muitas atenções.

Outra pessoa que profundamente me marcou na forma de estar no jazz foi o crítico e grande divulgador José Duarte. Conheci também estudiosos e especialistas muito diferenciados em Portugal, nomeadamente: Raul Vaz Bernardo, António Curvelo (o tipo que melhor escreve sobre jazz em língua portuguesa), Manuel Jorge Veloso e o musicólogo Jorge Lima Barreto (já falecido).

Estive, muitas vezes, com dois grandes especialistas europeus imprescindíveis, autores de livros sobre jazz. São eles: Philippe Carles e Alain Gerber. Sabem muitíssimo. Dos “States”, terei de destacar dois especialistas brutais: Gary Giddins e Ted Gioia, autores fundamentais. A lista não ficaria completa se não incluísse o nome de alguns músicos que me contam o que não vem nos livros, mas, se os citar, a nossa entrevista não terminará, dado que não temos todo o tempo do mundo…

ANGOP – O que representa o jazz para si?

JB – Para mim, o jazz representa um grande amor, uma enorme paixão e espécie de vacina muito eficaz, com poucos efeitos colaterais contra as maldades e baixezas deste mundo injusto, que é urgente modificar. Às vezes, há algum sofrimento, invejas, mas o Jazz tudo cura.

ANGOP - Qual é o "feedback" que recebe dos amantes desta arte?

JB - Apesar da indiferença que também existe, face à música da minha vida, guardo, ternamente, na memória, muitas belas mensagens de encorajamento. Partilhar um concerto com mais de 600 pessoas, como aconteceu na celebração do Dia Internacional do Jazz, no Sana, em Luanda, no passado 30 de Abril, apenas com artistas e criadores angolanos, é certamente tão importante como chegar a um porto de abrigo, depois de muitas aventuras no mar. Ou, como disse o cantor Paul Simon: “Atravessar por uma ponte segura e sólida sobre o mar revolto". É gratificante. Um dia, depois de uma manobra proibida, um polícia já kota perguntou-me: “Porquê que nunca mais apareceste na televisão”? …e ficámos amigos. O apoio da família mais chegada e dos amigos mais íntimos tem sido essencial.

ANGOP - Com algum detalhe, além da TPA, onde voltou a apresentar o programa de jazz, em que órgãos tem trabalhado para a divulgação deste estilo?

JB - É verdade. Regressei à TPA, onde já tinha estado durante 15 anos, com o “Clube de Jazz”, a convite do Chico Simmons. Hoje, mantenho um programa na Rádio LAC, desde que esta estação, que não pode emudecer, surgiu, em 1992. Um programa semanal, às segundas, ao entardecer. Este “Jazz LAC” não se afasta da ideia posta em prática em 1992, há 27 anos, quando a Rádio LAC nasceu: mostrar as amplas possibilidades desta música, a sua riqueza técnica e as suas poderosas mensagens humanas, de forma a abrir horizontes a quem do jazz pouco ouviu ou só provou os frutos de uma única árvore. Queremos alargar o círculo dos amigos deste estilo e abraçar os que ainda não o conhecem a juntar-se a esta música de grande beleza e encantamento.

Para além da Televisão e da LAC, escrevo para o “Novo Jornal”, quando é importante e urgente…Gosto e sei estar à sombra.

ANGOP - Que análise faz do actual momento do jazz no mundo?

JB - Actualmente, o estado do jazz é, felizmente, muito melhor que o do mundo. Apesar dos inúmeros avanços científicos, designadamente na área das imunoterapias que hoje trazem esperança a pacientes, em quem só havia tristeza, atentemos nos devastadores incêndios na Amazónia, cujas consequências são trágicas, sobretudo para o Brasil, mas também para os seus vizinhos e para o mundo. Olhemos para o Mediterrâneo a encher-se de sangue, de mortos, de criancinhas afogadas; valorizemos o regresso de líderes com características autoritárias e antidemocráticas, as makas do clima, os furacões, pensemos nos ladrões, na fome em África, enfim, num mundo onde milhões e milhões sobrevivem abaixo de qualquer escala de dignidade da vida.

O mundo está desafinado, muito dissonante. No jazz, a situação é muito mais animadora. Esta arte adulta – e viva - move-se, simultaneamente, em várias direcções. As deambulações do jazz, neste século, são algo que sigo com enorme entusiasmo e paixão. Os percursos musicais dos músicos são múltiplos e marcados pelo desassossego. É impressionante a quantidade de colaborações - distintas - que o mesmo músico mantém, o que não acontecia no passado. E não nos esqueçamos das extensões criativas e originais que hoje existem em África, no Japão, na Europa, no Brasil, em Cuba…e timidamente em Angola. Enfim, vagueando entre a fusão mais marcante (que começou em New Orleans), o “mainstream”, o rigor clássico e as aventuras pós-Free   Jazz, o  “Etno Jazz”e ainda o enamoramento pela cultura clássica (Mozart, Bach, Tchaikovski et al), o jazz continua a caminhar pelas avenidas largas, por ruelas, becos com e sem saídas, sempre com uma grande pedalada, vivo e de saúde, longe das urgências dos hospitais.

ANGOP – Depois de mais de três décadas a promover esse ritmo, começam a surgir, finalmente, alguns cantores de jazz em Angola. O que isso significa para si?

JB - Surgiram cantores e instrumentistas. Significa que o meu salário social está a ser pago! Felizmente, há algum reconhecimento por parte de músicos, e isso é gratificante. É preciso reconhecer o papel importante que a televisão teve junto daqueles jovens que viam o “Clube de Jazz” quando era a preto e branco. Num programa da TV Zimbo, o saxofonista Sanguito disse: “foi aquele senhor que está ali sentado que me levou para o jazz”. O “senhor” era eu.

ANGOP – Que lembranças tem desse período, em que o jazz era tido, pela maioria da população angolana, como um género exclusivo das elites?

JB - Algum desconforto, lembranças amargas e pouco animadoras. Confundia-se muito “elites” com “elitismo”. “Elites” que é preciso incentivar a sua existência - na ciência, no desporto, na cultura, na dança, na literatura, na pintura, entre outras coisas. Hospitais e Farmácias só para alguns é que são elitismos.

O jazz tem a ver com uma nova cultura e exige outra sensibilidade. Uma nova postura que encare os desafios que a arte coloca.

ANGOP – Sente que hoje essa visão da sociedade mudou e que o jazz tem aceitação?

JB - Está a mudar, paulatinamente. É preciso democratizar o acesso à arte, em geral, e ao jazz, em particular, fomentar o gosto pelos concertos desta música, dar a conhecer os seus autores e músicos, desenvolver o diálogo e a aproximação entre artistas e criadores, criar parcerias, pontes, com pólos mais desenvolvidos, com Cuba, Portugal, Brasil, África do Sul, e, obviamente, com os “States”. Devemos também lutar, com determinação, contra o que é falsamente popular, que aliena o gosto e o sentido crítico. O jazz continua a ser um parente pobre, que raramente se senta à mesa da chamada “cultura”. E quando entra nos grandes salões, fica nos lugares do fundo…, como acontecia nas igrejas da América e não só.

ANGOP - Quem são, afinal, os pioneiros do jazz?

JB - A transformação do folclore de New Orleans numa música mais estruturada, que passaria a chamar-se jazz, deve-se a muitos, mas citaria o pianista Jelly Roll Morton, o cornetista Joe Oliver “King” e o seu melhor aluno, Louis Armstrong, o primeiro “clássico” do jazz, que destaca o papel de solista. Um homem de grande genialidade melódica, com uma voz única, um músico completo.

Destacaria também, entre tantos outros, a figura seminal de Duke Ellington, pianista e compositor. Um trunfo, um génio, que instala o negro na sua obra ímpar e olha para África com um carinho muito especial. O jazz de “Big Band” teve em Duke Ellington o seu maior inovador e embaixador. É impossível passar-lhe ao lado, impossível escapar ao fascínio de uma música composta e tricotada ao pormenor, que tirava partido da mais ínfima nuance de cada interveniente da orquestra, retratando, ao mesmo tempo, o todo e cada uma das partes. A sua discografia é vastíssima e impressionante.

E, agora, seguir-se-ia uma lista felizmente interminável.

ANGOP - O jazz produzido pelos angolanos tem força para se manter, sendo um estilo que está entre os menos populares no país?

JB - Já existem criadores angolanos que se expressam muito bem numa linguagem jazz. Isto é inegável. Alguns deles fizeram a formação na África do Sul, no Reino Unido e nos Estados Unidos. É preciso dizer que lutam contra uma enorme adversidade, contra o preconceito, contra a falta de oportunidades e de apoios, entre outras coisas.

Tenho enorme respeito pela coragem destes jovens músicos que lutam pela sua arte, mas não fazem grandes concessões.

A sua música acabará por conquistar o seu espaço de dignidade. Falo, concretamente, dos instrumentistas Nino Jazz, Carlos Praia, Mário Gomes, Beny, Makiesse, José Somodo, Kapa D., Divino Larson, Jackson Saka e Ivan Campillo. E recordo as vozes de Katiliana, Afrikanita e Anabela Aya. Estes artistas podem apresentar-se em qualquer palco! E há outros em formação, numa base de autodidactismo, a solicitarem, urgentemente, patrocínios, uma sala de concertos digna desse nome, com ao menos um piano acústico e alguns professores que possam estar entre nós.

ANGOP - O Festival Internacional de Jazz, em Luanda (iniciado em 2009), deixou de ser promovido há poucos anos. Até que ponto isso prejudicou o trabalho de promoção do ritmo que já se havia iniciado?

JB - O “Luanda International Jazz Festival” (LIJF) viveu de 2009 a 2012, teve quatro edições, foi um trabalho louvável e muito, muito meritório. Durante três edições (2009, 2011 e 2012), trabalhei como assessor do director do evento e “Press Officer”. Nunca intervim na definição do modelo da iniciativa nem nas escolhas dos artistas convidados.

O “LIJF” levou muita gente ao jazz, sobretudo jovens, mas acabou-se. Desconheço as causas, mas sinto muitas saudades dele.

ANGOP – Não é muito comum assistirmos, ainda hoje, a festivais de jazz. Como é realizar eventos destes num país como Angola, onde se privilegiam os ritmos comerciais e imediatistas?

JB - Deixe-me recordar o trompetista de New Orleans, Winton Marsalis, quando este pergunta: “Por que razão havemos de chamar a festivais de música festivais de Jazz?”

Há uma grande confusão nos conceitos e, muitas vezes, objectivos inconfessáveis. Mas, oremos… Ao longo de mais de três décadas, já organizei em Angola – ininterruptamente – mais de 70 concertos, que têm dado a conhecer alguns dos mais importantes nomes inovadores deste estilo, servido por músicos dos Estados Unidos, onde nasceu, e também por instrumentistas e cantores europeus, sul-americanos e africanos que desenvolvem extensões jazzísticas criativas e originais.

Nos últimos anos, tenho promovido e divulgado alguns artistas (instrumentistas e cantores) angolanos já sintonizados com o jazz e com músicas improvisadas. Os alicerces que sustêm as iniciativas e as metas que todos os anos lhe renovam as forças são já conhecidos.

O segredo, além do empenhamento do trabalho de bastidores que suportam a música em palco e outras actividades ao jazz intimamente associadas, está no equilíbrio de uma programação, que, sem se apartar em demasia do corpo central da história deste ritmo, pratica a inclusão em vez da exclusão e evita megalomanias.

Devo sublinhar que, no meu modesto entender, o concerto é a forma mais espectacular do jazz, porque nos transmite “in presentia” a vivência total da criação musical. Quanto a mim, o concerto (ao ar livre, em palanque ou em clube) é, talvez, a forma mais importante da divulgação jazzística e constitui a maneira mais autêntica de se “ouver” (ver e ouvir ao mesmo tempo ) o jazz. Os concertos, quando passam a viver connosco e se agarram à alma, são – sempre - um excelente pretexto para o jornalismo de música.

Em síntese, e para responder à sua questão: organizar concertos de Jazz, não beneficiando de grandes paternalismos, é quase um acto de loucura, saudável loucura.

ANGOP – Quais são as principais barreiras que se colocam aos fazedores do jazz?

JB - O preconceito, em termos gerais, que abarca as profissões ligadas à arte e um encapotado “racismo estético”, são dificuldades enormes, bem como as carências gritantes. Só um exemplo, entre muitos, é necessário alugar um gerador para o caso da energia…bazar a meio de um solo.

Há quem pense que, designadamente “os/as do jazz”, tomam bicas triplas…para acordar. Vai havendo umas dignificantes excepções. No 40.º aniversário da Independência de Angola, fui convidado pelo então ministro da Administração do Território, actual vice-presidente da República, para organizar, com o apoio do seu ministério, dois concertos com o guitarrista americano Stanley Jordan. Foram dois concertos memoráveis, em Luanda. Houve oportunidade para se organizar uma sessão improvisada com o músico e marimbeiros, no Mussulo. Grande encontro “afro-americano”, difícil de esquecer.

ANGOP - Nem com a Lei do Mecenato surgem empresas dispostas a apostar no desenvolvimento efectivo do jazz. O que falta, afinal, na sua opinião?

JB - Meu caro, vou contar-lhe uma história ocorrida num restaurante no Harlem, Nova Iorque, com o baterista Max Roach, um artista de grande talento e um homem muito empenhado politicamente na luta dos direitos cívicos e noutros combates pela cidadania dos afro-americanos. Estavam no Sylvia’s, nome do restaurante, famoso pela comida “afro” que serve aos clientes, muitos turistas japoneses que reconheceram o baterista e foram, um a um, cumprimentá-lo, numa espécie de cerimónia de apresentação de cumprimentos. Depois sentaram-se.

O empregado, afro-americano, aproximou-se do seu “brother”, Max Roach, e disse-lhe: “Homem, você deve ser uma pessoa famosa”. Não sabia quem era o genial Max Roach. No que toca ao jazz, a lei que menciona não mudou nada relativamente ao trabalho que realizo, com amor, há várias décadas.

ANGOP - Em termos de organização de eventos, o que conseguiu fazer neste ano, que já "consumiu" muitos meses, e que perspectivas se abrem para 2020?

JB - Disse muito bem. O ano já consumiu muitos meses. Em 2019, pelo sexto ano consecutivo, realizei o concerto alusivo ao “Dia Internacional do Jazz”.

Pelo facto, recebi novamente (pela terceira vez) uma carta aconchegante da Unesco, assinada pelo seu embaixador da Boa Vontade, Herbie Hancock, pianista e compositor reputadíssimo, por tudo, pela sua obra colossal.

A Unesco publicou, no seu “site”, o que Angola vem fazendo, mas da parte da nossa comunicação social houve um olímpico silêncio. Felizmente, aprendi com o Chico Buarque: “ a nossa dor não vem no jornal”.

Como no jazz nunca sabemos quais são os compassos seguintes, e ainda hoje a improvisação é a acção central nesta arte, talvez se improvise algo em 2020…

Como não benefício de grandes paternalismos, tenho de sonhar bem alto.

ANG - Mudando de assunto, que análise pode fazer do actual momento político e social do país?

JB - Vivemos um momento de transição, em que coexistem várias tendências. Nem a futurologia mais sofisticada permitiria uma indicação segura. Há, no entanto, alguns avanços saudáveis, que é importante destacá-los. Salientaria, nomeadamente, o desaparecimento, no novo ordenamento jurídico angolano, do chamado “delito de opinião” e o esbatimento de premissas ideológicas totalitárias, que banalizaram o mal. Hoje, o ar está muito menos poluído, mais respirável. Deste modo, não desvalorizo os novos ventos que passam. Acredito que, apesar da magnitude das problemáticas sociais, Angola vai sorrir.   

ANG - Acredita que este rumo possa trazer boas novas para a cultura? 

JB - As tendências actuais vão, certamente, influenciar o mundo das ideias, o clima das artes, das letras, da música, se, e este é como diria o filósofo Herbert Marcuse, um grande “Se”, se evitarmos os erros do passado, das últimas décadas, em que se nivelou por baixo, promovendo os menos capazes, os bajuladores, dificultando a afirmação das verdadeiras vozes independentes, criadoras e libertárias.

O grande drama, em meu entender, é que se aposta quase sempre em músicos sem memória, que desprezam o passado. E ainda não aprenderam, não interiorizaram que as raízes não bloqueiam; ajudam a crescer mais forte!  

ANG - Acredita no papel social, quase interventivo, da música e dos músicos?

JB - O jazz é, felizmente, um exemplo claro e inequívoco da capacidade transformadora da arte e da música. É fundamental destacar o poder do jazz como uma força para a liberdade e criatividade, uma plataforma de entendimento e união entre pessoas de todas as geografias e latitudes. Recordemos o papel da música no Brasil, durante a ditadura militar, com Geraldo Vandré; a coragem interminável de Fela Anikulapo Kuti, que enfrentou, sem medo, e de prisão em prisão, os regimes militares na Nigéria; Victor Jara, que, depois do assassinato de Salvador Allende, continuou a cantar a revolução chilena até à sua execução, em 1973, pelos generais de Pinochet.

Com uma história dura, o jazz, nos países da chamada “Europa de Leste”, de excelente nível, sobreviveu à ocupação soviética, repressão estalinista e às ditaduras de Ceausescu, Honecker, Yuvkov, Husák, entre outros.

Entre nós, convém não esquecer, por exemplo, a importância notável de Barceló de Carvalho (Bonga) [Angola 72 é um disco “obrigatório”] e, necessariamente, o “Ngola Ritmos” - o sol da nossa música.    

ANG - Como olha para o momento actual da música em Angola?

JB - No que toca à música, vivem e trabalham em Angola presentemente músicos / cantores muito sérios e empenhados e cumpridores, que actuam em condições difíceis e sobrevivem quase por milagre. São, sobretudo, os que amam o jazz e que o enriquecem com extensões criativas de grande originalidade, oriundas das culturas angolanas e africanas. Enfrentam um mundo enorme de incompreensão. E, habitualmente, não beneficiam de paternalismos. Estou a cingir-me, exclusivamente, à música, mas o panorama pouco animador afecta, igualmente, outras disciplinas estéticas.

Todos sabemos que o “nacional cançonetismo” está bem e recomenda-se, repetindo temas e comportamentos. Assista-se às famosas galas…com “cachets” que nem o Sinatra cobraria!

Entretanto, veja-se o estado em que os antigos cinemas, nos quais já se realizaram concertos e festivais de música, se encontram. É de chorar.

Não temos instalações para concertos desse nome, nem pianos - mesmo em segunda mão. É lamentável. E circulam viaturas de topo por estradas esburacadas.

Mas, tal como aconteceu com o jazz, “a flor que, apesar de tudo desabrocha no pantanal”, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que luta contra as dificuldades; músicos, cantores, instrumentistas, compositores e alguns produtores - mais sintonizados com este tempo de mudança.

Historial

Jerónimo Belo nasceu em Luanda, em 1948, é bibliotecário e documentalista.

Trabalhou na Biblioteca Central da Faculdade de Medicina (1973-1983) e dirigiu o Departamento de Documentação e Informação da Universidade Agostinho Neto (1973-1995).

Na condição de bibliotecário, frequentou estágios profissionais e participou em congressos e encontros internacionais em Portugal, Suíça e Estados Unidos.

A partir de Abril de 1995, passou a desempenhar as funções de adido cultural e de imprensa na Delegação da Comissão Europeia em Angola.

Desde a juventude que se dedica, com paixão, ao estudo do jazz, promovendo a sua divulgação em Angola, tendo começado, desde inícios da década de 70, programas regulares de propagação na Rádio Nacional “Raízes”, “Jazz no Calor da Noite” e “Triângulo do Mar”.

Manteve, na televisão angolana (1987-2002), o programa semanal “Clube de Jazz-TPA” e, desde a abertura da Rádio Luanda Antena Comercial, em Setembro de 1992, apresenta, à segunda, o espaço “Jazz – LAC”, onde divulga nomes de artistas, referencia e comenta o movimento discográfico.

No âmbito da divulgação do jazz, organiza vários eventos, especialmente o programa anual “Jazz no Calor da Noite”, desde 1991, que inclui a produção de concertos com a presença de importantes instrumentistas do jazz, nomeadamente: Mário Laginha, Nicholas Payton, Mark Turner, Aaron Goldberg, Reginald Veal, Carlos Martins, Bernardo Sassetti, Greg Tardy, as cantoras portuguesas Maria Viana, Maria João, Paula Oliveira, Joana Rios, Jacinta, as norte-americanas Melissa Walker, Vanessa Rubin, Carmen Lundy, entre outros.

Na área da divulgação da cultura afro-americana, também realiza mostras de jazz e cinema (DVDs), exposições fotográficas “Restos, Rastos & Rostos” e de pintura “Ritmos Coloridos”, sessões de poesia e apresentação de obras literárias sobre o mesmo estilo. Como crítico nesta área, tem participado em importantes festivais (Europa, Estados Unidos e África do Sul). Em Portugal, no Instituto de Estudos de Desenvolvimento (IED), participou em vários cursos sobre questões ambientais, tendo-se destacado como um activo divulgador destas matérias nas rádios e nos jornais de Angola.

Publicações

Dedica-se, igualmente, à actividade literária, tendo já publicado “Jazz – Geometria Variáve” (1991), “Feijoada” (1998) e “Blues e a Poética contra a Indiferença” (2005). É autor de vários ensaios e mais de duas centenas de artigos sobre jazz e ambiente, principalmente no Jornal de Angola, de que é colaborador e foi (1994 e 1995) responsável pelo suplemento cultural “Vida & Cultura”.

Condecorações

Em Janeiro de 2006, foi distinguido pelo Ministério da Cultura com um Diploma de Mérito, pelas iniciativas em prol da divulgação do jazz. Foi-lhe outorgado pela República Federativa do Brasil o Grau de Comendador da Ordem Rio Branco, em 2004, e, em 2001, recebeu do Reino de Espanha a outorga da Cruz de Oficial da Ordem de Isabel à Católica.

Assuntos Angola   Música  

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