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24 Setembro de 2019 | 17h09 - Actualizado em 24 Setembro de 2019 | 17h08

Profissionais do grafite reivindicam espaço

Luanda - No "coração" da 21 de Janeiro, uma das mais movimentadas avenidas da cidade capital angolana, um colorido desperta a atenção de milhares de automobilistas, que procuram entender a essência de imagens artísticas "cravadas" em robustas paredes de betão.

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Arte de grafiteiros na Avenida 21 de Janeiro, em Luanda

Foto: Emersons da Silva

Cidadão observa, estupefacto, a expressividade de um grafite numa das ruas de Luanda.

Foto: Rosario dos Santos

(Por Vissolela Cunha)

Produzidas por jovens irreverentes que expressam sentimentos e a sua forma de ver o Mundo por via da arte, os trabalhos já entraram para a lista das mais conhecidas obras de grafite do país.

Para quem passa pela avenida, é quase impossível ficar indiferente à beleza daquelas imagens.

É tudo feito à base de spray e muita imaginação. Todos os dias, em várias zonas de Luanda, é comum encontrar trabalhos assim, mas quase nunca se sabe quem os criou?

Afinal, quem nunca se deparou com uma parede grafitada algures pela cidade, sem saber, ao certo, quem são os autores das inspiradoras obras de arte?

Pois é, eles andam aí, colorindo escolas, hospitais, pontes e prédios abandonados, para melhorar a imagem visual da cidade e massificar uma arte que há já várias décadas  ganhou espaço nos Estados Unidos da América, no Brasil, em Portugal, na Colômbia (...).

É a chamada grafite, manifestação iniciada em Nova Iorque, na Idade Contemporânea, na década de 1970, mas que, em plena era da tecnologia de ponta, ainda procura afirmar-se em Angola.

Essa arte urbana, que consiste em narrar factos sociais do quotidiano, com recurso ao spray e parede de suporte, surgiu no país em meados dos anos 90. Volvidas quase três décadas, os seus fazedores ainda reivindicam espaço e dizem-se discriminados.

Estima-se que existam, por todo território, pouco mais de 50 grafiteiros, na maioria concentrados em Luanda. Muitos destes são ainda iniciantes e carecem de orientação.

Os grafiteiros "invadem" com regularidade vedações e muros públicos, retratando várias imagens que simbolizam ou valorizam figuras históricas de Angola.

Nas suas obras, ficam patentes as marcas da angolanidade e dos ancestrais que marcaram o percurso da resistência anti colonial, como a Rainha Njinga Mbandi e o Rei Mandume, pintados desde que os grafiteiros ainda eram desconhecidos.   

"Eram raras as manifestações artísticas pela arte do grafite. Então, as pessoas tinham dificuldades  de aceitar  aquilo que elas não entendiam", justifica o grafiteiro Isaac André (Hisbi), que aprendeu a pintar paredes há dez anos.

O artista lamenta o facto de ainda haver pessoas que associam esses criadores a vândalos por pintarem paredes, mesmo com a visibilidade da arte no país.

Afirma tratar-se de uma manifestação artística, diferente da pichação, que passa, muitas vezes, por borrar paredes sem recurso à ciência, com frases ou imagens imorais. 

Quem também desmistifica o preconceito à volta desses profissionais é a professora de arte Dinamene Tavares, para quem "o grafite é uma arte bonita, mais ainda quando feita com orientação ou autorização dos donos das paredes de suporte".

A profissional reconhece que, muitas vezes, esse procedimento não é cumprido, sendo esta a principal razão de os grafiteiros serem muitas vezes chamados de vândalos.

O grafite atraí as pessoas pela luminosidade das cores, transmitidas pelas paredes pintadas, quer na rua, quer no interior de hotéis, restaurantes e, quiçá, residências.

Custos preocupam grafiteiros

Segundo os profissionais da área, é uma manifestação cara e sem apoios em Angola.

O grafiteiro And Graff, 26 anos de idade, iniciou-se nesta arte aos cinco.

Com 21 anos de prática, considera caro o preço do spray, material indispensável para feitura do grafite. Para pintar uma parede, diz, precisa de pelo menos 50 latas.

"Uma lata de spray custa cinco a quatro mil kwanzas", aponta And Graff.

Já Hisbi indica que, quando pinta uma parede de dois metros de altura e dois de comprimento, gasta, no mínimo, 12 latas de spray.

Diferente do colega, os seus fornecedores vendem ligeiramente mais barato, mas ainda assim acima do preço desejado.

Cada unidade de spray, informa, custa entre dois mil e 500 kwanzas e três mil kwanzas.

Face a isso, And Graff sugere a criação de uma associação dos grafiteiros, para dar mais visibilidade a esta expressão artística no país e resolver os problemas dos criadores.

 Informa que existem alguns grupos organizados, no máximo com 10 elementos, que geralmente executam obras em conjunto, mas a associação, como tal, não existe.

O grafiteiro Álvaro Katutu entende que o Governo deve dar maior atenção e espaço ao grafite, como faz às outras artes, para que haja maior diversidade artística. 

"Quando solicitamos apoios, algumas entidades tentam ajudar, mas outras, por saberem que não é uma arte que dá lucro imediato, afastam-se", lamenta.

"Mural da Leba" valoriza arte

Pela cidade de Luanda já existem vários trabalhos de grafite com visibilidade singular, entre os quais o muro de vedação do Catetão (campo de treinos do Petro de Luanda) e nas imediações da livraria Irmãs Paulinas, ambos na Avenida Deolinda Rodrigues, bem como o muro nas imediações da Tecnocarro, Estrada Nacional Número 100 norte.

Mas não é só pela cidade capital que existem essas obras de arte.

O projecto cultural "Mural da Leba" simboliza bem a prática desta arte fora de Luanda.   

Lançado em 2015, para embelezar artisticamente seis mil metros quadrados de parede na Serra da Leba, na estrada nacional 280 que liga as províncias do Namibe  e da Huíla, a iniciativa tem como mentor o jornalista angolano Vladmir Prata.

Já mostraram o seu talento no Mural da Leba os angolanos Thó Simões, Nuno Camoxi "Noppy" e Rafa, alem dos brasileiros Nanda Santana, Annie Gonzala e Eder Moniz.

Thó Simões, artista plástico há 20 anos, começou a desenvolver profissionalmente o grafite em 2015, com a sua participação no projecto "Mural da Leba", que junta, geralmente, angolanos e estrangeiros.

Aí passou a nutrir paixão por esta arte de rua. Motivado, diz que não tem problema em pintar paredes nas ruas, porque faz parte da sua vocação como artista.

Segundo Hisbi, as pinturas de viadutos e outras paredes, no quadro de eventos culturais como Fenacult e Bienal de Jovens Criadores da CPLP, tem ajudado igualmente a sociedade a conhecer a arte do grafite.

Por este facto, o artista crê no futuro brilhante do grafite, pela qualidade dos grafiteiros nacionais que trabalham para dar maior desenvolvimento a esta manifestação no país.

António Feliciano Dias dos Santos "Kida", artista plástico, diz que o grafite é uma das facetas das artes plásticas, apesar de ter as suas particularidades e técnicas.

"No grafite encontramos a pintura, gravura, cerâmica, tecelagem artística, desenho, fotografia, banda desenhada e outras disciplinas da arte do belo", explica.

Socialmente, Kidá, com mais de 20 anos de produção de gravura, considera que o grafite contribui principalmente na beleza estética  das cidades e na divulgação de aspectos culturais, históricos e do quotidiano das sociedades.  

Quem corrobora dessa opinião é o sociólogo João da Graça, que apela à sociedade para prestar maior atenção aos grafiteiros, uma vez que dão novo ar e beleza aos espaços, deixando para trás o "ambiente ofusco".

Para si, qualquer arte tende a transmitir alguma coisa, sobretudo aquilo que faz parte da cultura de um determinado povo.

O académico não vê nada de negativo na pintura em paredes, mas apela à responsabilidade dos grafiteiros, quando conceberem as suas obras.

"Não devem transmitir conteúdos ofensivos para a sociedade", aconselha.

 O grafite é uma manifestação artística que já ganhou o Mundo.

Quando feita dentro das normas, ajuda a mudar a imagem das cidades.

É essa mudança que Fernando Cristóvão, morador do Sambizanga (Luanda), diz ter notado naquele município, onde as imagens do grafite substituíram os nomes de grupos de meliantes em determinadas paredes.

"O visual mudou desde que os muros começaram a ser pintados pelos grafiteiros que retratam a cultura angolana, como as mumuílas, instrumentos musicais e palavras que incentivam a moralidade e o civismo", comenta.

Já Constantino Monteiro, do município de Viana, indica que os grafiteiros devem ser apoiados, porque  embelezam as ruas da cidade e melhoram a imagem dos bairros.

A estudante de economia Rosa Joaquim admite a existência de grafites muito bem-feitos, por algumas ruas da cidade capital.

Luciano  Bom Ano é de opinião que se deve intensificar mais a prática do grafite, por ser uma das formas de expressar sentimentos e promover a diversidade cultural. 

A propósito, a União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP) afirma que já vai surgindo alguma sensibilidade das autoridades, em particular do governador provincial de Luanda, Sérgio Rescova.

Segundo Tomás Ana "Etona", secretário-geral da UNAP, há a pretensão do governo local concretizar, ainda este ano, um projecto de embelezamento das ruas da capital de Angola e, para tal, conta com a criatividade dos grafiteiros.

Encoraja os profissionais do grafite e demais artistas a continuarem a trabalhar em prol da educação da sociedade, com a apresentação de obras que ajudem a cultivar os bons hábitos e reafirmem a identidade nacional.

Portanto, a arte do grafite já é uma certeza. Em várias partes do país, perfilam artistas com ideias fantásticas, dispostos a fazer arte, sem ofender a moral pública.

Tudo que desejam é ter latas de spray à mão, a baixo custo, e muros para grafitar.

Venham daí mais criações de grafite, mais paredes "reavivadas", mais luz, mais cor e mais vibração na cidade. Afinal, os grafiteiros estão aí.

Assuntos Angola  

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