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17 Novembro de 2019 | 09h32 - Actualizado em 18 Novembro de 2019 | 12h38

Estradas sangrentas, vítimas lembram peripécias

Luanda - Há 14 anos, Martinho da Cunha luta contra o passado, para apagar da mente a história do acidente brutal que quase "sentenciou" a sua vida.

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Acidente provoca morte de bombeiros no Namibe

Foto: Angop Namibe

Acidente na vila da Mama Muxima, envolvendo um mini-autocarro

Foto: Nelson Malamba

(Por Tchinganeca Dias)

No ano de 2005, conheceu a dor de perder um ente-querido nas sangrentas estradas de Luanda, após a viatura em que seguia ter sido violentamente colhida por um camião.

Martinho esteve à beira da morte, passou por coma num hospital e por pouco não entrou para a estatística dos cidadãos que perderam a vida em acidentes rodoviários, aos quais o Mundo dedica atenção especial, neste Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada.

O acidente ocorreu na estrada de Cacuaco, envolvendo, além do camião, uma viatura em que se encontravam cinco ocupantes, três dos quais acabaram mortos.

Apenas Martinho e o motorista sobreviveram ao forte embate do camião desgovernado, que transportava areia e seguia em excesso de velocidade.

O motorista pôs-se em fuga, deixando um quadro desolador: três mortos e dois feridos.

Martinho esteve entre as vítimas e, com ferimentos graves, ficou 14 dias em coma.

Volvidas quase duas décadas desde o acidente, ainda lembra dos momentos amargos por que passou, ficando com uma certeza: as estradas estão cada vez mais sangrentas.

"Foi a pior fase da minha vida, por ter perdido três, dos quatro amigos com quem estava no carro", lembra o cidadão, ainda com a emoção visível no rosto.

Martinho da Cunha conta que ainda hoje tem sequelas do acidente e, por mais que o tempo passe, vai carregar o trauma de Cacuaco para o resto da vida.

Esta é só uma história, das muitas que todos os dias ocorrem nas estradas de Angola, onde aumenta, de forma preocupante, o número de vítimas em acidentes de viação.

Todas as semanas, o país regista centenas de mortes nas estradas, milhares de feridos graves e avultados danos materiais, que ascendem aos milhares de kwanzas.

As estatísticas são altas, sendo que Luanda continua com o mais expressivo índice, com uma média de 572 acidentes, 193 mortes e 479 feridos/mês.

A província com a média mais baixa é a do Namibe, com 60 acidentes e 10 mortes/mês.

Segundo as autoridades policiais, o mau estado técnico das estradas, a pouca sinalização, fraca iluminação, imprudência dos condutores e peões, bem como a travessia em zonas proibidas, de forma desordenada, estão entre as principais causas dos acidentes.

Entretanto, há quem entenda que um outro problema faz aumentar os acidentes: a falta de rigor na fiscalização e licenciamento de viaturas em más condições técnicas.

O Governo reconhece a necessidade de reforçar as medidas para travar as mortes nas estradas, numa altura em que os sobreviventes de acidentes falam na falta de consciência dos condutores para a gravidade de um problema que pode afectar a todos.

Os acidentes de viação mudaram drasticamente a vida de muitos angolanos, destruíram sonhos e deixaram milhares de famílias literalmente arrasadas e com o futuro tremido.

Teresa da Costa, de 28 anos, teve a sorte de sobreviver a um acidente de viação, mas, na ocasião, perdeu uma das pessoas que mais amou na vida: a mãe.

Em 2017, na estrada Viana/Luanda, quando saía de um almoço familiar, uma carrinha embateu na parte traseira do seu carro (Hyundai I10), obrigando-a a efectuar um peão.

Em consequência, a mãe ficou ferida, foi encaminhada para uma unidade hospitalar, mas não resistiu aos ferimentos e acabou por morrer.

"Ainda sinto a imprudência do condutor da carrinha que embateu contra o meu carro e seguiu viagem como se nada tivesse acontecido", lembra a condutora.

Teresa conta que era de noite e quase não havia gente para os socorrer, salientando que, devido ao trauma, até hoje não consegue passar pela zona do acidente mortal.

Acidentes diminuem, mas mortes aumentam em 2019

Os acidentes nas estradas de Angola diminuíram comparativamente a 2018 (menos 162), mas em contrapartida as mortes aumentaram.

De acordo com o superintendente António Pinduka, da Direcção Nacional de Viação e Trânsito (DNVT),no período de Janeiro a Setembro do ano em curso registaram-se sete mil 839 acidentes nas estradas nacionais, que provocaram mil e 859 mortes e oito mil e 262 feridos.

Em relação ao mesmo período de 2018, houve diminuição de 162 acidentes, mas aumento na ordem de 83 mortes.

Já em relação aos feridos, a DNVT registou igualmente a redução de 222 vítimas.

A corporação aponta como causas do aumento do número de mortes a demora na prestação dos primeiros socorros, sublinhando que a falta de iluminação, o mau estado técnico dos veículos e das vias continuam a propiciar o aumento de casos.

"A sinistralidade tem a ver com a nossa forma de conduzir. Há uma fraca qualidade dos nossos condutores, um nível bastante elevado de desrespeito e não cumprimento do código de estrada. Em Angola faz-se condução ofensiva e não defensiva", observa.

No entanto, o oficial aponta o "dedo" aos peões, cujo comportamento, nas estradas, coloca em perigo as suas vidas e dos demais usuários das vias rodoviárias.

Fala, particularmente, da travessia desordenada em locais impróprios. Para combater esses maus hábitos no sistema rodoviário, informa que têm sido promovidas acções de prevenção e sensibilização, como a distribuição de cartilhas e palestras envolvendo peões e condutores.

Sociólogo descreve principais factores

Entretanto, essas medidas não têm tido o impacto desejado, uma vez que continua a registar-se, sobretudo em Luanda, centenas de pessoas a atravessar fora das passadeiras e das pedonais, expondo-se ao risco de atropelamento e de perder a vida.

Para o sociólogo Ferraz Neto, é preocupante o elevado número de acidentes, mortes e feridos que todos os dias são registados nas estradas nacionais.

O especialista aponta três factores fundamentais para justificar os acidentes: incumprimento das regras de trânsito, por parte dos automobilistas, carros que circulam pelas estradas com alterações das características de fábrica e mau estado das vias.

Adianta que um estudo feito recentemente revela que os jovens são as maiores vítimas de acidentes de viação em Angola.

"Os jovens são a força activa do país e se estamos a perde-los em acidentes, onde uns morrem e outros ficam com 90 por cento de incapacidade, quem vai sair penalizado é o país, que vai ter menos probabilidades de desenvolver", comenta.

Por seu turno, a sub-comissária Madalena Dias dos Santos refere que a sinistralidade tem fortes implicações políticas, económicas e sociais, constituindo a segunda causa de morte em Angola, entre adolescentes e jovens dos 10 aos 24 anos de idade.

Para sensibilizar a sociedade sobre o elevado índice de mortes nas estradas, a DNVT realiza hoje (17 de Novembro) uma marcha em solidariedade às vítimas da estrada, em alusão ao Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as projecções indicam que, caso não se tomem medidas, os números podem aumentar 65 por cento nos próximos 20 anos.  

Para reduzir o impacto dos acidentes em Angola uma nova mentalidade se impõe, para os automobilistas, para os peões e para os agentes reguladores de trânsito.

As vidas devem ser protegidas e todos precisam lutar, de mãos dadas, para evitar carregar o fardo de uma morte indesejada, ou seja, um homicídio involuntário.  

As regras de trânsito estão aí, para serem cumpridas com zelo e rigor. Afinal, as estradas foram feitas para circular e não para engrossar as estatísticas de mortos.

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