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20 Setembro de 2019 | 17h19 - Actualizado em 22 Setembro de 2019 | 16h26

Lixo vira "ouro" de famílias carentes

Luanda - Debaixo de sol, de chuva e entre amontoados de lixo, centenas de famílias de baixa renda procuram, diariamente, por objectos recicláveis para venda e subsistência, num contexto económico de forte "retracção" do mercado de emprego em Angola.

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Catadores recolhem garrafas em amontoado de lixo no município de Cacuaco, em Luanda

Foto: Foto Cedida

Cidadã recolhe resíduos sólidos numa das ruas de Luanda

Foto: TARCISIO VILELA

(Por Francisca Augusto)

Há pelo menos 10 anos, a recolha e venda de resíduos sólidos a empresas especializadas passou a valer "ouro", tornando-se fonte directa de renda de várias famílias carenciadas.

Todos os dias, o cenário se repete em vários cantos do país, com quase 27 milhões de habitantes e uma taxa de desemprego de aproximadamente 29 por cento (entre os 15 e 64 anos de idade), segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística.

Crianças, jovens, velhos e portadores de deficiência "disputam", palmo a palmo, objectos aparentemente sem valor, em Luanda, que produz, em média, seis mil toneladas de lixo/dia.

São os chamados catadores de lixo, que brigam, frequentemente, por papelões, garrafas de vidro e de plástico, fios de cobre, sacos de plástico, latas de cerveja e de refrigerante, ferros (…), recolhidos ao ar livre e usados como "moeda de troca".

Trata-se de um negócio ainda sem grandes lucros em solo angolano, que ganha espaço particularmente em Luanda, cuja população se estima em sete milhões de habitantes.

A recolha e venda de lixo é feita, actualmente, sem a observância de normas de saúde pública, expondo os catadores a riscos de contaminação, aos olhos de qualquer um.

O negócio "atrai" pessoas necessitadas de várias idades, incluindo crianças com menos de cinco anos, que vasculham lixeiras, sem protecção, em busca de "objectos perdidos", para assegurarem o pão e proverem alimentos para os seus progenitores.

A recolha de resíduos sólidos é feita em praticamente toda capital do país, em particular nos municípios de Cacuaco, Viana e Cazenga, que albergam o maior número da população de Luanda e já dispõe de algumas empresas recicladoras de lixo.

A reciclagem de lixo é o quarto maior negócio do mundo. Dados do Banco Mundial indicam que, só em 2012, a população urbana produziu 1.300 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Espera-se que essa cifra ascenda a 2.200 milhões em 2025.

Segundo estudos, 2.120 mil milhões de toneladas de resíduos perdem-se anualmente, quantidades suficientes para dar a volta ao mundo 24 vezes, se colocadas em camiões.

Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico apontam que os países mais recicladores de resíduos são Alemanha, Coreia do Sul, Austrália, Eslovénia, Bélgica, Suíça, Holanda, Suécia, Luxemburgo, Islândia, Dinamarca e o Reino Unido.

A título de exemplo, a Alemanha recicla 65 por cento dos resíduos sólidos urbanos. Já os demais países reciclam 90 por cento dos resíduos do sector de construção civil.

Na Suécia, quase 100 por cento do lixo produzido é reaproveitado, de tal forma que o  país europeu já tem excedentes, ou seja exporta lixo tratado para outras nações.

Outra referência é a Finlândia, onde são recicladas nove de cada dez garrafas plásticas usadas e quase 100 por cento das garrafas de vidro achadas como resíduos.

Relatórios mostram que os Estados Unidos da América, a China, Índia e o Brasil são os maiores produtores de lixo plástico no mundo, com quase 11 milhões de toneladas.

A reciclagem do alumínio economiza 95 por cento do custo de energia para produzir alumínio novo. É assim que, desde 2005, os moradores de Nova Iorque são obrigados a reciclar os seus aparelhos electrónicos ou pagar uma multa de 100 dólares por peça.

Para ter-se uma ideia, a quantidade de latas e garrafas de refrigerante dispensada num ano, pelos norte-americanos, é suficiente para chegar e voltar da Lua 20 vezes.

Se nesses países o negócio do lixo já contribui para as receitas do Estado e promove  empregos, em Angola há ainda escassez de investidores na indústria da reciclagem.

Apesar de constituir um bom espaço de empreendedorismo e fonte de negócio sustentável, são ainda reduzidas as empresas do ramo, pelo que os catadores individuais de lixo perfilam como "peças-chave" para dar vida a esse importante negócio.

Eles brigam por cada pedaço de ferro ou de plástico, para tratar, vender e gerar renda familiar.

"É com a recolha de bidões de água e papelão que sustento a minha família. Não me envergonho por isso e para mim é uma profissão normal", afirma António Manuel.

O catador diz que chega a comercializar, por exemplo, um conjunto de 10 garrafas plásticas de água, de 0,5 mililitros, a cinco kwanzas. Feitas contas, arrecada 50 kwanzas por cada 10 garrafas. O número sobe para 250 kwanzas se forem 50 vasilhames.

É com esses parcos lucros que António Manuel e parceiros de negócio "tocam a vida".

Joana Makanda é outra catadora que encontrou nesse negócio a única fonte de renda, já que o mercado de emprego retraiu com o surgimento da crise económica, em 2014.

A cidadã diz-se privilegiada por não enveredar para prostituição e por desenvolver alguma actividade útil e honesta, para ajudar nas despesas familiares.

"Sou mãe de três filhos e dois frequentam a escola. Graças ao trabalho de apanhar garrafas e vende-las às fábricas sustento os meus filhos", reporta.

Mas o negócio não atrai apenas adultos. Zenildo João, com apenas 13 anos de idade, também recolhe garrafas de plásticos para obter dinheiro e sustentar os pais.

O adolescente expõe-se a todo tipo de riscos, por “mergulhar” em lixeiras desprotegido.

Zenildo é filho de pais portadores de deficiência física, sem condições para exercer alguma actividade profissional de força. É ele a “chave” do sustento de casa.

Para gerar renda, vende os seus resíduos a empresas e cooperativas que compram os restos por tipologia, previamente seleccionados a partir das famílias.

Recicladoras valorizam negócio

Até ao momento, não há estatísticas exactas para aferir quantas famílias vivem, na prática, à base desse negócio. Pelos indicadores e observação directa nas ruas da capital do país, tudo indica que sejam centenas envolvidas na recolha e venda de lixo.

A cooperativa Recovasso, com 25 trabalhadores, é uma das poucas que trabalha nesse ramo e recebe os materiais dos catadores, para transformar em novos produtos.  

Com as garrafas de água mineral recolhidas pelos seus trabalhadores directos e compradas nas mãos dos catadores, a empresa produz 100 vassouras por dia.

"Apesar do apoio das empresas de engarrafamento de água, que nos fornecem garrafas inutilizadas, ainda compramos o material que os catadores recolhem no lixo", informa.

Segundo Gilberto João, responsável da cooperativa, para a confecção de uma vassoura são necessários pelo menos 40 bidões de água mineral. Muitos deles vêm do lixo.

Há oito anos no mercado, cinco dos quais a produzir vassouras, a cooperativa vende mensalmente ao principal cliente mil vassouras, produzidas a partir desse material.

A cooperativa diz que conta com um nível de produção média de 250 vassouras/dia.

A Embalang também dedica-se a esse negócio. No mercado angolano há cerca de um ano, conta com 84 trabalhadores e recicla por ano 3.120 toneladas de papel e 6.240 toneladas  de cartão canelado. A perspectiva é começar a trabalhar com o plástico.

O seu índice de facturação mensal é de 18.200.000 kwanzas, sendo que tem previsão de atingir um volume de 43.127.500 kwanzas/mês.

Para melhorar o processo de reciclagem, Paulo Barros, administrador da empresa, diz que há necessidade de os fornecedores fazerem uma separação devida dos resíduos.

A sua matéria-prima vem de instituições públicas e privadas, com destaque para supermercados e gráficas. À semelhança da outra, também trabalha com os catadores.

A Embalang produz, essencialmente, papel helénico e pastas de papel.

Segundo Paulo Barros, o negócio é feito sob muitas dificuldades, principalmente pela falta de um modelo de gestão de lixo que facilite o acondicionamento dos resíduos.

Outra empresa que dá suporte à actividade dos catadores de lixo é a Vidrul, que conta com 405 colaboradores e recicla por ano 27 mil toneladas de vidro.

A unidade fabril, no mercado angolano desde 1958, começou em 2010 a reciclar uma maior percentagem de casco (conjunto de garrafas de vidro quebradas).

Segundo a responsável de marketing da empresa, Rita Villas-Boas, em 2013 a Vidrul lançou um desafio à população, em especial aos catadores de lixo, no sentido de recolherem vidro espalhado na rua e vende-lo à instituição.

A venda e o pagamento do material recolhido na rua são feitos por tonelada.

"Este desafio foi muito bem-sucedido, pelo que, actualmente, há muitas pessoas a viverem da recolha e venda de vidro", expressa a responsável.

O cidadão Marcolino Venâncio, 44 anos de idade, morador no município de Viana, é um dos que abraçou esse desafio de recolher garrafas.

Com essa actividade, mudou a sua vida e livrou-se da delinquência a que estava metido.

Pai de seis filhos e desempregado, foi convidado a integrar um grupo de marginais que assaltava à mão arma. No seu primeiro assalto, um dos integrantes do grupo foi morto a tiro. Isso fê-lo reflectir bastante sobre o rumo a dar a sua vida.

Com ajuda de um amigo, entrou para actividade de catador de lixo.

Marcolino, a princípio, tinha vergonha de exercer a actividade, mas com o incentivo do amigo continuou a fazer recolhas e vendas de casco à empresa Vidrul.  

Hoje, o catador gosta cada vez mais deste exercício laboral e já pensa em juntar um conjunto de trabalhadores para abrir uma cooperativa de reciclagem de lixo.

Já Filipa Bernardo, 60 anos, moradora do município de Cacuaco, começou com o trabalho de catadora de garrafas em 2014,  por falta de meios para o seu sustento.

"Onde passo, estou sempre a observar ao longo da rua, se há uma garrafa. Apanho e no final do dia, às vezes, quando chego a casa, tenho boa quantidade. Vendo  uma moto de quatro rodas, vulgo caleluia, cheia de garrafa, a três mil e 500 kwanzas", assevera.  

Todos esses catadores ouvidos pela reportagem da ANGOP dizem-se felizes com o negócio e alimentam o sonho de prosperar, vendendo resíduos extraídos do lixo.

A sua actividade é valorizada pela ambientalista Madalena Camões, que apela à sociedade para apostar cada vez mais na reciclagem, por ser geradora de riquezas.

Perspectivas do Estado

De acordo com o presidente do Conselho de  Administração da Agência Nacional de Resíduos Sólidos, Monteiro Lumbu, apesar de já haver algumas empresas no mercado, muito ainda deve ser feito para potenciar o mercado do tratamento de resíduos sólidos.

"Devemos ter em conta que mais do que empresas, o país necessita de obras de construção civil, equipamentos mecânicos e/ou eléctricos, viaturas, recipientes e acessórios, recursos humanos, financeiros e estruturas de gestão, para valorizar todo tipo de resíduos", diz.

Faz saber que Angola já tem legislação para regular o negócio, como o Decreto Presidencial n.º 265/18, de 15 de Novembro, que surge para valorizar o uso e transformação de resíduos, permitindo a transferência de resíduos para o exterior.

Monteiro Lumbu explica que a legislação sobre a gestão de resíduos responsabiliza o produtor de resíduos a acompanhar e garantir a correcta gestão e deposição final dos resíduos, por si produzidos, bem como a adoptar medidas para reduzir ou diminuir a produção dos mesmos.  

No entanto, entende que a insuficiência de equipamentos necessários para o bom funcionamento de um modelo de recolha tem sido a causa da deposição de lixo de forma indiferenciada no aterro sanitário dos Mulenvos, em Luanda.  

"O Estado está empenhado na definição de novos modelos que se adeqúem à realidade angolana, sem perder de vista que um dos eixos principais é a educação ambiental à população", comenta.

A reciclagem é um processo de valorização de resíduos, com vista a sua recuperação  ou regeneração das  matérias constituintes, dando origem a novos produtos.

Enquanto espera-se por um novo modelo de recolha e gestão dos resíduos sólidos, Angola procura caminhos para fazer da transformação do lixo uma fonte de receitas para os cofres do Estado e uma actividade "salvadora" de centenas de famílias pobres.

Por agora, o negócio ainda é feito sem grandes lucros e por um número reduzido de profissionais.

As empresas do ramo da reciclagem dizem-se prontas para investir no negócio e, com o seu esforço, juntar-se ao duro processo de diversificação da economia, num país (Angola) que ainda vive, maioritariamente, das receitas do petróleo e dos diamantes.

O mercado está aí, aberto para novos investidores e empreendedores nacionais e estrangeiros, no quadro da livre concorrência já "apadrinhada" pelo Executivo.

Se depender dos catadores, as empresas recicladoras podem estar certas de que, faça sol ou faça chuva, os resíduos sólidos extraídos do lixo estarão sempre ao dispor.  

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