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25 Outubro de 2019 | 17h09 - Actualizado em 25 Outubro de 2019 | 17h09

Angola na rota do "Guinness Book"

Luanda - Quando se fala em longevidade, pelo mundo, quase sempre os países asiáticos surgem no "centro da trama", com centenários marcados de histórias, alguns deles já no Livro dos Recordes.

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Parte trazeira do BI de Palata Kassanga

Foto: Rosário dos Santos

Centenário Palata Kassanga em Mavinga

Foto: Rosário dos Santos

(Por Elias Tumba e Ângela Correia)

Os últimos registos oficiais indicam o Japão como o país mais propenso ao surgimento de anciãos que resistem ao desgaste do tempo e rompem, como poucos, a barreira dos 110 anos.

Trata-se de um país com alta expectativa de vida e a população mais longeva da história, incluindo Jiroemon Kimura, falecido em Junho de 2013, aos 116 anos.

O idoso ostentava, à data da morte, o recorde de longevidade masculina.

Outro nome do Japão que já entrou para a história é Masazo Nonaka, falecido em Janeiro deste ano, aos 113 anos, na altura o homem mais velho do mundo.

Nesta segunda-feira, o alemão Gustav Gerneth morreu na localidade de Havelberg onde morava, uma semana após fazer os 114 anos.

O "país do sol nascente" tem dezenas de idosos acima dos 100 anos de idade, entre os quais Kane Tanaka, 116 anos, actualmente considerada a pessoa mais idosa em vida no planeta Terra.

Kane nasceu a 2 de Janeiro de 1903, o mesmo ano em que os irmãos Orville e Wilbur Wright fizeram o primeiro voo motorizado da história e iniciaram a aviação moderna.

O título, atribuído pelo livro Guinness dos Records, a 9 de Março deste ano, foi vivamente celebrado no lar para idosos onde vive, em Fukuoka, no Oeste do Japão.

A pessoa mais velha do mundo antes de Tanaka era, curiosamente, a também japonesa Chiyo Miyako, falecida em Julho do ano passado, aos 117 anos.

De acordo com o Recorde The Guinness, a pessoa mais velha do mundo, de todos os tempos, é a francesa Jeanne Louise Calment, que viveu até aos 122 anos de idade.

À primeira vista, são números que assustam, de tão incomuns, num mundo cada vez mais globalizado, industrializado e tecnológico, onde a vida pode acabar cada vez mais rápido.

Kane Tanaka resiste às dificuldades do mundo da tecnologia digital. Mas a sua história e trajectória vem de um século em que o homem era menos nómada e mais trabalhador.

A sua distinção como pessoa mais velha do mundo já foi contestada por autoridades de outros países da Europa, América do Sul e África, entre os quais o Brasil.

No princípio deste mês, as autoridades de Pilar, Maceió, no Brasil, tentaram convencer os pesquisadores do Guinness Book que têm consigo, na prática, a pessoa mais idosa em vida em todo mundo.

Trata-se da alagoana Josefa Maria da Conceição, de 117 anos e sete meses, nascida a 7 de fevereiro de 1902, data que a prefeitura de Maceió diz poder comprovar com  documentos.

Entretanto, não é só da América do Sul que se levantam vozes a contestar o título da japonesa.  

Angola também pode estar em vias de entrar para a história, contrariar as tendências e revelar para a humanidade um feito incomum: o decano da humanidade pode estar aqui.

Dito de outra forma, o cidadão mais velho do mundo, ainda em vida, de que se conhece  até agora, pode estar em Mavinga, província do Cuando Cubango, Leste de Angola.

Seu nome é Palata Cassanga, nascido na aldeia de Mavinga, a 20 de Abril do longínquo ano de 1900.

Feitas contas, o idoso terá, hoje, 119 anos, ou seja, mais três que a actual decana Kane Tanaka.

Mas este dado, aparentemente animador, precisa de verificação especializada. Afinal, o seu Bilhete de Identidade atesta ter nascido em 1905, cinco anos depois da data real do seu nascimento.

Em causa está um lapso nos Serviços de Identificação Civil, que erraram na grafia correcta do ano de nascimento, comprometendo um título que, na prática, já até pode ser seu.

"As pessoas que emitiram o Bilhete de Identidade é que diminuíram os anos. Aquando da criação desse município eu estive cá, quando ainda não existia nada", conta.

Velho Palata explica que foi ele que transportou o primeiro colonizador português chegado a Mavinga e, para dissipar dúvidas, diz-se disponível para eventuais testes laboratoriais.

Tudo o que quer é expor-se aos pesquisadores independentes, para confirmar os seus 119 anos.

Oficialmente, as autoridades angolanas ainda não se pronunciaram sobre o caso e acerca da possibilidade de requerer a entrada do ancião no disputado livro de recordes.  

A confirmarem-se os estudos e a idade do idoso, abre-se uma grande excepção em Angola, em relação à esperança de vida, que passou dos 63 anos para os quase 65 anos de idade, segundo os resultados do último censo do Instituto Nacional de Estatística (INE).

O censo de 2014 indica que a população com 65 ou mais anos de vida no país é de apenas 612 mil 430. Isso representa 2 por cento da população angolana, com 265 mil 106 homens e 347 mil 325 mulheres.

Luanda, Cabinda e Bié são as províncias com menor número de pessoas idosas, enquanto Cunene e Bengo têm o nível mais alto de pessoas idosas.

O estudo mostra que o Zaire é a província oficialmente considerada mais velha de Angola, enquanto a mais nova é a província do Bengo.

Segundo a projecção da população angolana no período 2014-2050, a esperança de vida do angolano passa para 80 anos de vida.

Em 2020, a população com 80 ou mais anos passa a 97 mil 079, com 38 mil 905 homens e 58 mil 174 mulheres. Até 2050, os cidadãos com 80 ou mais anos passam a ser de 347 mil 258.

Um soba no meio do mato

Enquanto as previsões não se concretizam, é Palata Cassanga, soba de Mavinga, que ganha espaço nos holofotes e prepara-se para uma eventual candidatura como o decano da humanidade.

Afinal, quem é este idoso que pode levar o nome de Angola para um dos mais importantes livros históricos e de memória do planeta Terra: Guinness Book?

Palata Cassanga é o terceiro de uma família de 20 filhos.

Nasceu em Mavinga, um município com quase 30 mil habitantes, que procura encontrar os caminhos do desenvolvimento, depois da destruição originada pela guerra civil.

É o único sobrevivente de uma família humilde, habituada a viver da caça e pesca.

O centenário tem 10 filhos, nove dos quais a residirem em Menongue e no Cuito Cuanavale.

Tem 30 netos e não faz ideia de quantos bisnetos nasceram no clã.

"Não conheço os bisnetos, porque nasceram em outras regiões", explica o ancião, que assumiu o poder tradicional (soba) em 2002, no quadro de uma linhagem de família.

Conhecedor da realidade de Mavinga, o ancião é amante da caça, pesca e aquicultura, profissões a que se dedicou desde a infância até começar a sentir o peso da velhice.

Foi militar na época colonial, em Sanza Pombo, província do Uíge, onde fazia parte de uma guarnição que defendia fazendas ou roças de café.

Fez os treinos militares em Nambuangongo, antes de rumar para Malanje, onde ficou três anos. Regressou à sua terra natal, ainda num contexto de colonização.

Palata Cassanga não teve tempo de frequentar a escola, pelo menos a escola formal da carteira, do lápis, do papel e do giz. Ainda assim, aprendeu a comunicar-se.

"Não passei pela escola, porque naquele tempo estávamos obrigados a fazer trabalho forçado. As escolas só surgiram depois da independência nacional", conta.

Diz que o segredo da sua longevidade está na alimentação.

"Tenho estado a comer pirão (pasta de farinha de milho) com alguns tipos de conduto (prato principal). Mas lamento o facto de agora o governo proibir a caça de todo tipo de animais. Até uma cabra é preciso licença. Antes não era assim", observa.

O ancião sugere que o governo repense essa medida, sustentando que a licença devia ser apenas para animais de grande porte ou em vias de extinção, e nunca para cabras, veados, coelhos (...).

Apesar da idade avançada, o ancião deixa uma recomendação às autoridades do governo e pede ao Presidente da República para “colocar pessoas certas nos lugares certos”.

"As coisas devem chegar, aquilo que o governo dá deve chegar à população. Há coisas que são destinadas aos sobas, mas não têm chegado", desabafa o ancião, que reivindica maior abertura e oportunidades de intervenção nos encontros de concertação social.

"É necessário fazer o resgate dos valores morais, porque, por causa desta má interpretação, os jovens estão a perder a cultura, porque acham que sabendo ler e escrever é solução para tudo", lamenta.

Palata Cassanga é um homem cheio de histórias, que nasceu na era da escravatura, conviveu com autoridades coloniais e acumulou experiências de vida.

Ainda cheio de vida, Palata Cassanga é um caso raro em Angola.

Apesar dos 119 anos que afirma ter, anda como que novo, fala e raciocina convenientemente, mas, em alguns casos, já tem falhas de memória.

O seu olhar cansado, o rosto envelhecido, os passos lentos, mas firmes, denunciam o seu grande conhecimento sobre a tradição africana, sobretudo da região sudeste.

É um património de Angola, que merece atenção, protecção e estudos científicos, para dissipar uma dúvida que pode mudar a sua história e colocar Angola na boca do Mundo.

Se tudo for feito, com olhar de quem de direito, quem sabe Palata Cassanga não venha a ser, num futuro breve, o novo decano da humanidade: o rei da longevidade.

Até lá, pode continuar a viver no anonimato e perder a chance de entrar para a história dos vencedores.

Assuntos Sociedade  

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